CLIENTE: Gilberto Gil
VEÍCULO: Diário do Pará - Belém
SEÇÃO: Por Ai+Coluna
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SERVICE DATA: 28/08/2009
Diário do Pará
POR AÍ + COLUNA
PARABÓLICA (música + cinema + literatura pop)
billmachado@yahoo.com.br
ISMAEL MACHADO
Belchior e a MPB
nos anos 70
A
ligação me pegou despre-
venido. A editora do Você,
Marcia Carvalho, me pe-
dia para fazer um texto,
uns três mil toques, sobre essa histó-
ria do sumiço do Belchior. O texto,
feito às pressas, sem consulta de nada,
saiu na quarta-feira passada e foi capa
do caderno. Mas eu já havia me pau-
tado para escrever sobre Belchior na
coluna, desde aquela matéria do Fan-
tástico, no último domingo
Tenho declarada paixão pela
MPB dos anos 70, que considero
muito
roqueira em sons e atitudes.
Guilherme Arantes, Zé Ramalho, Al-
ceu, todo o pessoal de Minas... e Bel-
chior. Cheguei a ter em vinil
I
quatro
discos do cantor cearense. Me fasci-
nava o conteúdo das letras de Bel-
chior. Ele mantinha uma postura de
ser uma ave completamente estra-
nha ao cenário musical brasileiro.
Nas canções, soltava farpas às vezes
Fale com a redação: poraldiario@gmail.com
Belém-PA, sexta-feira, 28/08/2009
PÁG.: 07
nem tão veladas assim a Roberto
Carlos, Caetano Veloso, Gil, Raul Sei-
xas, Ney Matogrosso e quem mais
aparecesse pela frente.
O surgimento foi naqueles festi-
vais de música que até meados dos
anos 70 ainda tinham uma relevân-
cia significativa para a MPB. A músi-
ca foi "A Hora do Almoço", aquela
que dizia "...no centro da sala, diante
da mesa, no fundo do prato, comidae
tristeza,
gente se olha, se toca e se
cala.”. Com essa canção ganhou o IV
Festival Universitário da MPB, em
1971.
Depois veio o primeiro disco, A
Palo Seco, aquele que inicia cortante:
"tenho 25 anos de sonho e de sangue
e de América do Sul/por força deste
destino um tango argentino me vai
bem melhor que o blues". E que en-
cerrava avisando: "eu quero é que
esse canto torto, feito faca, corte
carne de vocês".
Era agressivo. Era áspero. E re-
fletia uma série de desencanto não
só com a música brasileira, tropica-
lismo em primeiro plano, como com
a geração paz e amor, com os sonhos
da utopia hippie e com a presença
forte dos militares rondando cada
esquina.
fazendo aquelas coisas na base da
magia, do misticismo, como se ainda
vivéssemos na década de 60. Eles se
recusam a adotar um comporta-
mento racional para interpretar a
realidade".
"Viver é melhor que sonhar”,
cantava . E também “por isso cuida-
do, meu bem, há perigo na esquina
eles venceram e o sinal está fechado
pra nós, que somos jovens". Belchior
entava fechar a tampa do caixão
psicodélico, festivo, que ainda so-
bressaía num certo setor da juventu-
de. "A minha alucinação é suportar o
dia-a-dia e o meu delírio é experiên-
cia com coisas reais”.
O último grande disco de Bel-
chior talvez tenha sido o "Era uma
vez um homem e seu tempo", ainda
na primeira metade da década 80. É
dele uma lembrança que acho signi-
ficativa para uma mudança de men-
talidade tinha a respeito de de
terminadas teorias sobre música.
Numa tarde encontrei o Anderson,
um cara que foi importante por me
mostrar alguns sons naquele início
de década que formariam meu gosto
musical, como
como Yes e Rush. Ele vinha
com esse disco do Belchior debaixo
Nos anos 70, Belchior construiu
a carreira como um oposto de Cae- do braço. Pedi para ver e ele me disse
Folha de
tano Veloso. Tanto que numa entre-
vista ainda naquela década para a
São Paulo, assim resumiu a
turma de Gil e Caetano: "eu acho
que esse tropicalismo
pessoal do
teve uma contribuição importantís-
que havia acabado de trocar por uma
coletânea de Bob Dylan. "É a mesma
coisa”, justificou diante da minha
cara de espanto. Só depois fui enten-
der aquilo em plenitude.
sima na nossa música. Mas não te-
nho diante deles uma atitude de ido-
latria. Acredito que para sua época,
eles trouxer mudanças muito
importantes. Mas hoje prosseguem
E ouvir de um jovem repórter
que "se ficou dois anos sumido e
ninguém deu pela falta é porque não
faz falta alguma”, é mais uma vez
não acredit
muito nessa geração
modernosa.
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