"Uma viagem ao velho mundo, raiz da nossa cultura, é sempre importante. Ver o original de uma obra é dispensar o intérprete. Não se trata de [viajar à Europa] cedo ou tarde, mas o de saber ver. Milhares de pessoas desfilam pelas galerias do Louvre, olhando sem ver. Newton descobriu a lei da gravidade refletindo sobre a queda de uma maçã. Quantos antes dele foram atingidos por objetos que caíram do alto, sem jamais questionarem a razão da queda. O conhecimento enriquece, a ignorância deprime."
LAGNADO, Lisette. Conversações com Iberê Camargo. São Paulo: Iluminuras, 1994. p. 21-22. (Fala de Iberê Camargo).
"[...] Os mestres renascentistas trabalhavam com senso de escultor produzindo ocos e volumes com acentos do pincel que ora detinham num acento vigoroso, ora corriam levemente, acariciando a forma. Senso de escultor e volúpia de grande amoroso que acaricia o objeto amado [...]. É evidente que possuíam extraordinário virtuosismo manual, hoje tão descurado pelos pintores intelectualizados e depreciado pelos jornalistas de arte. Vem do exercício a segurança da mão que traça, sem hesitar, verdadeiros arabescos que fazem viver as superfícies. O touche, para os antigos, tinha a importância de uma caligrafia. Caligrafia é coisa pessoal e não se imita. Para conseguir uma cópia idêntica ao original, você teria que se aprofundar em velhos tratados de explicações confusas e contraditórias, para depois tentar seguir, passo a passo, o antigo processo. Observei que os copistas profissionais do Louvre fazem ou pensam fazer este caminho, começando muitos por desenhar e valorizar com tinta verde e daí por diante. O resultado nós conhecemos, uma cópia estúpida e impessoal e que foge inteiramente ao nosso objetivo, que não é o de trazer para casa um Tiziano autêntico, mas aprender a ver com Tiziano. [...]"
CAMARGO, Iberê. Correspondência para Mario Carneiro. In: CAMARGO, Iberê; CARNEIRO, Mario. Iberê Camargo/Mario Carneiro: correspondência. Rio de Janeiro: Casa da Palavra/Centro de Arte Hélio Oiticica/RioArte, 1999. p. 46-47.
"'Che cosa ha fatto lei, per diventare un maestro? [O que ele fez, para tornar-se um mestre?]', pergunta-me De Chirico ao ver as fotos das cópias que executei no Louvre.
Encontrei surpreendente facilidade em copiar diretamente do original, o que não ocorreu com as reproduções, em Roma. [...]
Pela manhã, freqüento a Academia Lhote, à tarde, copio os antigos no Louvre. [...]
'O que não me mata torna-me mais forte', proclama Zaratustra. A necessidade de expressão cria a linguagem.
O imperativo da regra mata a criação."
CAMARGO, Iberê; MASSI, Augusto (org.). Gaveta dos guardados: Iberê Camargo. São Paulo: Cosac Naify, 2009. p. 93-94.
"Da análise minuciosa da história da pintura, Iberê desenvolveu sua própria linguagem, examinando questões de luz, espaço, harmonia cromática, composição e figura. Lá estavam Tiziano, El Greco, Rubens, Velázquez, Vermeer, Goya e Ingres, entre outros. Rubens e Goya imprimiram sensualidade e violência à pincelada; o olhar interiorizado de Vermeer contribuiu para a busca de uma essência silenciosa; Ingres trouxe o desenho refinado. Nessa plêiade, o percurso de Tiziano a Goya reaviva uma discussão substancial da história do retrato, ou seja da representação da figura humana."
LAGNADO, Lisette. Conversações com Iberê Camargo. São Paulo: Iluminuras, 1994. p. 96.
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