Panos e tapas

Museu Afro Brasil

estilos e técnicas de povos e países africanos

A fiação dos tecidos Bakuba
A expressão artística dos Bakuba do sudeste da República Democrática do Congo reflete seus valores culturais. Variados aspectos como a importância da instituição monárquica, a estratificação social, a altivez do grupo guerreiro e sacerdotal, bem como o pertencimento a grupos iniciáticos e a associações de poder exclusivo podem ser distinguidos amplamente a partir do vestuário, tapeçaria e nos demais usos práticos da tecelagem. Na história oral dos Bakuba conta-se que o primeiro rei (Nyimi) a introduzir a tecelagem foi Shamba Bolongongo (cerca de 1600). Ele foi o 93º rei do povo Bakuba, que ficou conhecido como um soberano pacífico e civilizador por introduzir no seu reinado a tecnologia de outros povos e também por valorizar as artes.

Wraparound skirt

Embroidered plant textile (raffia)
66,5 x 244 cm

A principal matéria-prima para os tecidos Bakuba é a ráfia. A ráfia é um tipo de palmeira originária da África e da América do Sul. As folhas dessa árvore, em formato de pinos alongados, estão entre as maiores do mundo e, por isso mesmo, são extremamente úteis na fabricação de tecidos. A retirada das folhas e a preparação das fibras muito finas que servirão de base para a criação do tecido congregam uma quantidade razoável de pessoas -- homens, mulheres e crianças. Após o fabrico da matéria têxtil e a transformação do tecido manualmente ou por meio de máquinas de tear, pode-se dar continuidade ao processo de ornamentação seguindo os muitos métodos de embelezamento possíveis.

Its leaves, in the shape of elongated pins, are among the biggest in the world and, exactly because of that, they are extremely useful in the production of cloths.

The extraction of leaves and the very thin fiber preparation that will be used as a base of the textile creation congregate a reasonable quantity of people -- men, women, and children.

After the manufacture of the textile cloth and the manually or by weaving machines transformation of the textile, it is possible to continue the ornamentation process followed by the several possible methods of embellishment.

Dentre os métodos de embelezamento usados pelos Bakuba, os principais são universalmente conhecidos: apliqué (junção e enlace de materiais sobrepostos); o bordado (que é o ato de tecer uma fiação visando à formação de desenhos específicos no tecido já manufaturado); Tie-dye (técnica de tingimento, que pode ser realizada antes ou depois do bordado); e o menos utilizado, o método de Patchwork (que é a criação de padrões a partir de cortes e retalhos com a remoção de áreas da base do tecido). O fio apropriado para tecelagem deve ser bastante fino, por isso, são utilizadas folhas de palmeiras bem jovens, que são postas ao sol para secar obtendo-se os fios.

Wraparound skirt

Embroidered plant textile (raffia)
58 x 189,5 cm

O processo de confecção dos fios pode ser feito de duas maneiras: ou desfiando as fibras de folhas uma a uma com a mão, ou utilizando um pente com gancho para desfibrá-las (o que facilita bastante o trabalho). São muitos os métodos empregados no "relaxamento" dessas fibras. Elas são, por exemplo, penteadas e raspadas com concha de caracol ou outra ferramenta afiada até que possam ficar bem lisas. Outro expediente habitual é fazer com que a peça já tecida seja submetida a um recipiente com água, deixando-a de molho. Em seguida, depois de envolvê-la em outros tecidos para protegê-la, ela é socada cuidadosamente com um pilão de madeira. Esse processo transforma fibras brutas semelhantes ao mato seco em fios maleáveis, delicados e bem macios, componentes essenciais na apreciação da arte da ráfia Bakuba.

SOFTENING
There are many methods employed in the "relaxation" of these fibers. They are, for example, combed and scraped with a snail shell or other sharp tool until they can be smooth.

Another usual procedure is to make the already woven part be submitted to a container with water, leaving it to soak. Then, after wrapping it in other fabrics to protect it, it is punched carefully with a wooden pestle.

This process converts rough fibers similar to dry weeds into soft, delicate, soft yarns, essential components in the appreciation of the Bakuba raffia art.

Wraparound skirt

Embroidered plant textile (raffia)
50 x 112 cm

Wraparound skirt

Embroidered plant textile (raffia)
70 x 542 cm

Wraparound skirt

Embroidered plant textile (raffia)

Wraparound skirt

Embroidered plant textile (raffia)

O bordado das mulheres Bakuba
Enquanto o trabalho da tecelagem se reserva aos homens, o bordado do tecido cabe às mulheres. A mulher é a líder no trabalho do bordado: é ela quem decide quais serão os padrões gerais utilizados e as cores, além de coordenar a produção. As mulheres Bakuba possuem um papel relevante na política, muitas vezes exercendo cargos de chefia e de sacerdócio. Ainda hoje, mulheres artífices se encarregam da produção de elegantes tecidos bordados. Entre as formas do bordado, os mais notáveis são os chamados "veludos do Kasai". Eles são fabricados especialmente por um grupo Bakuba chamado Shoowa. Este veludo é feito a partir do tecido da ráfia desfibrada, que é usado como pano de fundo.

O efeito do acolchoado na inclusão de camadas têxteis é obtido por um fio muito fino de ráfia, que passa por debaixo da tela e surge no topo, onde é cortado com uma pequena faca.

Tradicionalmente, os Bakuba criam suas tintas a partir de materiais naturais. Além da cor natural da ráfia, as principais cores de tintas usadas são o amarelo, o vermelho, o preto e o branco.

O vermelho é obtido do sândalo africano (came de madeira), o amarelo vem da árvore brimstone, a cor preta é retirada da mistura do barro de charco e de fontes vegetais e, por fim, o branco é retirado de um mineral chamado caolim.

THE COLORS
Red is obtained from African sandalwood (wood cam), yellow comes from the brimstone tree, the black color is withdrawn from the mixture of puddle mud and vegetable sources, and finally white is taken from a mineral called kaolin.

Os motivos são geralmente desenvolvidos com uma agulha, e a composição segue o critério do paralelismo das cores, estabelecendo e alternando os tons mais claros e os mais escuros para realçar as formas.

Este trabalho não só é realizado por mulheres, como na verdade foram as mulheres as próprias criadoras do "veludo do Kasai".

Embora a solução formal desses padrões seja abstrata, alguns pesquisadores apontam para a inspiração natural destas formas geométricas. Assim, seriam apreciadas as formas naturais como as escamas em ziguezague de um mamífero chamado pangolim, formas do casco de tartaruga ou desenhos chamados "bambi" ("antílope", na língua bakuba), entre outros. Na realidade, há mais de 200 tipos de padrões tradicionais (produzidos a partir de arranjos de triângulos, hexágonos, quadrados, xadrez e outras composições) que são transmitidos de geração em geração. Pode-se também perceber uma relação íntima entre os padrões desenvolvidos nos tecidos e os apresentados nas esculturas dos Bakuba. Em alguns casos, além das insígnias próprias, certas formas geométricas que aparecem em tecidos e em outras formas de arte Bakuba são exclusivas de determinadas posições sociais.

Historicamente, as concepções artísticas geralmente reproduziam em parte as formas das escarificações, que são cicatrizes inseridas na pele como "tatuagens" que servem como distintivos de identidade e hierarquia.

As Tapas do povo Mbuti
O povo Mbuti constitui um grupo étnico de caçadores-coletores de origem não banta. Eles vivem em pequenos grupos de 10 a 80 indivíduos nas regiões dos Grandes Lagos e na floresta de Ituri, a nordeste da República Democrática do Congo. Comparativamente, uma de suas características genéticas é a baixa estatura (os adultos alcançam em torno de um metro e meio de altura) e eles são conhecidos, por isso mesmo, pelo nome de "pigmeus". Porém, esse nome deriva de lendas e foi imposto por europeus de modo pejorativo. O termo Pigmeu (do grego pigmaíos) significa "a medida do antebraço" (um côvado). Há, realmente, no Canto III da Ilíada de Homero um relato sobre um povo de indivíduos pequeninos que viviam às margens do rio Nilo, no Egito (ou mesmo na Índia, segundo algumas fontes).

No entanto, os chamados pigmeus são na verdade povos africanos autóctones que foram atingidos pelas invasões bantas com os quais se integraram genética e culturalmente ou de onde foram expulsos.

Os Mbuti são exímios produtores da manta fibrosa que chamamos "tapa". A palavra foi originalmente utilizada para designar um tipo de fibra ornamentada e produzida a partir da entrecasca de certos tipos de árvores, sendo que os Mbuti a retiram da figueira.

A técnica de extrair essa manta fibrosa é milenar e também é comum no arquipélago de Samoa na Oceania, de onde provém o termo "tapa". A produção das tapas Mbuti é uma atividade coletiva.

Os homens são responsáveis pelo processo de amaciamento da entrecasca para modificar sua textura e solidez. As mulheres são responsáveis pela escolha da árvore e pela execução dos motivos artísticos da arte final.

A técnica de retirar uma camada interna do caule da árvore (entrecasca) é desenvolvida da seguinte maneira: são feitos dois cortes horizontais na "pele" da árvore, em seguida fatia-se em cortes na vertical. Retira-se um pedaço dessa entrecasca, submetendo-a depois a um processo de amaciamento.

São dados repetidos golpes (ou "tapas") na manta com martelos de marfim ou madeira; em seguida, o material fibroso é posto de molho n'água, repetindo o processo quantas vezes forem necessárias para se obter não só a maleabilidade bem como a espessura correta da manta.

Com o resultado dessa prática têm-se uma manta fibrosa felpuda, suave e com múltiplos usos. O "tecido" final é ornamentado por meio de estamparia monocromática com intrincados desenhos geométricos que se assemelham aos traçados de gravuras.

O processo de produção do corante que definirá os desenhos impressos na tapa é desenvolvido por meio de fontes naturais e orgânicas. A tinta é produzida a partir da mistura de carvão triturado com suco de frutas. Já os motivos artísticos são delineados na manta com o dedo ou com uma pequena vareta lisa, especialmente manufaturada para esse propósito. Do ponto de vista estritamente estético, podemos dizer que, basicamente, os traços são abstratos e as artistas Mbuti utilizam-se de composições que alternam formas orgânicas e geométricas, linhas paralelas, ziguezague, e muitas outras formas.

Créditos: todas as mídias
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