Do Instituto Gilberto Gil
Redação: Ricardo Schott, escritor, jornalista e pesquisador musical
Gilberto Gil em foto de divulgação da segunda temporada do programa Amigos, Sons e Palavras, exibido pelo Canal Brasil, da Globosat (2019-05-24)Instituto Gilberto Gil
"Nunca tive aula de violão nem de guitarra, sou autodidata. Os meus primeiros arranhões com violão foram quando minha mãe me deu um dinheiro e fui na Mesbla, em Salvador, comprar meu primeiro Di Giorgio. Foi com o violão que eu comecei toda essa coisa, e o autodidatismo...
"...Fui para casa com o violão e os métodos e aí fui aprendendo. Ouvia os discos, tentava por aqui por ali para saber: 'Como eu faço um acorde desse tipo? E aquele outro?'".
Gilberto Gil
Gilberto Gil e o neto Nino Gil no apartamento do músico em São Conrado (2018-12-23)Instituto Gilberto Gil
Gilberto Gil com seu acordeon em estúdio na década de 1970Instituto Gilberto Gil
Do acordeon para o violão
O músico Gilberto Gil nasce com o acordeon, numa época em que o instrumento era extremamente popular entre adolescentes e jovens nordestinos, nos anos 1950. O fole e os baixos nunca foram abandonados pelo cantor, que posou com o instrumento em fotos em várias fases da carreira.
João Gilberto e Vinícius de Moraes pelas lentes de Mário Luiz ThompsonInstituto Gilberto Gil
No entanto, quando ele descobriu as seis cordas, não parou mais. Foi só conhecer a batida de João Gilberto, ainda em sua adolescência, que o aspirante a cantor e compositor pediu um violão para sua mãe.
Gilberto Gil em apresentação da turnê do álbum OK OK OK em São Paulo (2019-06-22)Instituto Gilberto Gil
Gilberto Gil no III Festival da Música Popular Brasileira (Outubro de 1967)Instituto Gilberto Gil
“O violão foi meu instrumento básico. João Gilberto foi minha primeira grande influência. Depois, o Jorge Ben. Já havia um resíduo muito palpável de Dorival Caymmi, com aquela regionalidade do violão”, conta Gil.
Gilberto Gil e a mãe, Dona Claudina, cantam Toda Menina Baiana no documentário Tempo Rei (Janeiro de 1996)Instituto Gilberto Gil
O incentivo da matriarca
Dona Claudina lhe deu um dinheiro e lá foi ele comprar o violão em uma das primeiras lojas de departamento do Brasil. Antes disso, sua irmã Gildina já tinha um em casa, mas não tinha muito interesse em aprender a tocar o instrumento.
Gilberto Gil durante pré-produção do álbum OK OK OK (Maio de 2017)Instituto Gilberto Gil
Gil passou a estudar sozinho, aos 16 anos, usando dois métodos de violão que comprou junto com o instrumento – um mais clássico e outro com cifras. O primeiro LP de João Gilberto, Chega de Saudade (1959), fez com que o cantor se animasse mais ainda.
Toque para explorar
Encontro de sorte
Quando estava começando a se dedicar ao violão, Gil ainda teve uma sorte daquelas: fez uma viagem de lancha para passar um fim de semana em Salinas da Margarida, então um distrito de Itaparica, na Bahia (foto).
Gilberto Gil nos bastidores de seu show no navio MSC Musica (2008-11-21)Instituto Gilberto Gil
E encontrou na embarcação o violonista Clodoaldo Brito, o Codó, que ele já conhecia da Rádio Sociedade da Bahia. Codó viu o adolescente Gilberto Gil com o violão, pediu o instrumento e o afinou para o músico iniciante.
Um músico autodidata
O fato de ter estudado sozinho deu a Gilberto Gil régua e compasso próprios, sempre mediados pelo que ele escutava nos álbuns de João Gilberto. O cantor declarou ter estudado solfejo e divisão por quatro anos, mas sem o interesse necessário para mergulhar 100% naquilo, porque o que interessava a ele era o som e a possibilidade de acessar aquilo tudo o mais rápido possível. Gil foi criando uma matemática toda própria em sua cabeça para reproduzir as batidas de João Gilberto e levar os ritmos do samba e da bossa nova para o instrumento. Ele já revelou em entrevistas que, ao começar a pensar nos baiões que aprendera no acordeon, tornou-se um violonista desenvolto.
É possível perceber essa hibridização na canção Expresso 2222, que ele gravou ao violão, mas com uma cadência de baião.
Caderno de textos, composições e anotações diversas de Gilberto Gil Letra da música Requiem Pra Menininha Dos Gantois, de Gilberto GilInstituto Gilberto Gil
O instrumento e a composição
Gil começou a escrever canções enquanto se iniciava ao instrumento, e aos 18 anos já apresentava suas próprias composições no programa de Jorge Santos, aos sábados de tarde, na TV Itapuã de Salvador.
Capa do álbum Gilberto Gil, também conhecido como Retirante (1962, 1963, 1965 e 1966, mas lançado em 2010)Instituto Gilberto Gil
Com o começo da carreira profissional, ele e o violão tornaram-se inseparáveis em fotos, em shows, em imagens televisivas e até mesmo em capas de discos.
Gilberto Gil em ensaio para capa do álbum de 1971 (1971)Instituto Gilberto Gil
Logo no single Sua Música, Sua Interpretação, lançado em 1963 pelo selo JS (do amigo Jorge Santos), o desenho da capa é a silhueta do cantor com seu instrumento. Na imagem, artista posa para álbum dos anos 1970.
Capa do compacto de 1965 de Gilberto Gil, gravado pela RCA Victor (Março de 1965)Instituto Gilberto Gil
No single Roda / Procissão, lançado pela RCA em 1965, Gil – num gesto tipicamente ligado ao universo dos festivais da canção – segura o violão como se o exibisse para a plateia.
Capa do álbum Louvação, de Gilberto Gil (1967)Instituto Gilberto Gil
No LP Louvação, estreia em álbum na Philips em 1967, mais uma vez o instrumento está em destaque. E a discografia de Gil ainda inclui vários discos em que, só de olhar capa ou contracapa, não há dúvidas de que se trata do álbum de um violonista.
Capa do álbum Gilberto Gil Ao Vivo, de Gilberto Gil (1974)Instituto Gilberto Gil
Entre eles, o Gilberto Gil gravado em Londres em 1971, o Expresso 2222, de seu retorno do Brasil em 1972 (com uma foto do cantor, na arte interna, em tons azuis, cantando e tocando o instrumento), e o animado Gilberto Gil Ao Vivo, gravado no Teatro Tuca, em 1974.
Capa do álbum Gilberto Gil ao vivo em Montreux, de Gilberto Gil (1978)Instituto Gilberto Gil
Ou o disco ao vivo do Festival de Montreux, de 1978. A dedicação de Gil ao violão elétrico Ovation, um dos preferidos de Al Di Meola e Paul Simon, virou verso de uma música que Rita Lee fez em sua homenagem, Giló, apresentada no show Refestança, dividido pelos dois em 1977.
Jorge Ben, Fagner e Gilberto Gil em show no festival Phono 73 (1973)Instituto Gilberto Gil
O violão sempre companheiro
A carreira de Gil também é marcada por registros acústicos, que se tornaram históricos ou até mesmo bastante populares.
Gilberto Gil e Jorge Ben Jor durante aniversário de André Midani (2017-09-25)Instituto Gilberto Gil
Gil & Jorge - Ogum, Xangô, encontro de Gil com Jorge Ben, saiu em 1975 e mostrou os dois músicos acompanhando-se ao instrumento, com dois percussionistas, em releituras que, muitas vezes, ultrapassavam o tempo “comum” de uma música feita para tocar no rádio.
Refazenda, lançado no mesmo ano, abria com os acordes feitos por Gil num violão Ovation em Ela. Bem antes disso, teve a trilha sonora do filme Copacabana Mon Amour, de Rogerio Sganzerla, com Gil cantando e tocando violão ao lado de backing vocalista, flautista e percussionista.
Gilberto Gil em ensaio para o Show da Paz na sede da Organização das Nações Unidas (2003-09-19)Instituto Gilberto Gil
Esse álbum só chegou ao disco em 1998, na caixa Ensaio Geral, produzida por Marcelo Fróes, e depois ganhou uma edição em separado.
Gilberto Gil em show no Japão nos anos 80Instituto Gilberto Gil
Amor eterno pelo violão
Gil passaria a tocar guitarra, com o tempo – nos anos 1970 já aparecia nos palcos tocando o instrumento. Mas o violão ainda era o “seu” instrumento, como dava para ver em discos como Gilberto Gil Em Concerto, gravado ao vivo em 1986 no Copacabana Palace.
Gilberto Gil em show no Japão nos anos 80Instituto Gilberto Gil
Em quase todas as faixas, o músico dispensava acompanhamentos e concentrava-se na voz e no violão.
Gilberto Gil, Celso Fonseca, Lucas Santanna, Jorginho Gomes e Arthur Maia na gravação do Acústico MTV (1994-01-22)Instituto Gilberto Gil
O cantor, fã de registros de palco, ainda revalorizou a presença do instrumento em sua obra, em discos como o Unplugged de 1995 e o BandaDois, de 2009, que gravou ao vivo ao lado dos filhos José e Bem Gil.
Gilbert Gil em ensaio para a capa do álbum Gil Luminoso (2006)Instituto Gilberto Gil
Entre um e outro, em 2006, foi a vez do disco Gil Luminoso, que havia sido gravado em 1999 como complemento ao livro de mesmo nome, escrito por Bené Fonteles, e que trazia o cantor relendo músicas como Super Homem – A Canção e Aqui E Agora só com voz e violão.
Toque para explorar
O disco gerou uma turnê pelos Estados Unidos, que incluiu um show no Carnegie Hall, resenhado pelo crítico Jon Pareles no The New York Times.
Gilberto Gil e Caetano Veloso em show para o Festival Jazz à Vienne, da turnê europeia Dois Amigos, Um Século de Música (2015-07-03)Instituto Gilberto Gil
Em 2014, Gil requereu sua carteirinha de fã de João Gilberto ao unir clássicos autorais seus a sambas do repertório do bossanovista em Gilbertos Samba. E, em 2016, uniu forças e violões com o velho amigo Caetano Veloso na turnê comemorativa Dois Amigos – Um Século de Música.
Detalhe das mãos e violões de Gilberto Gil e Caetano Veloso no espetáculo Dois Amigos, Um Século de Música no Porto (2016-04-24)Instituto Gilberto Gil
Gilberto Gil no palco do Auditorium Conciliazone, em Roma, onde fez show da Solo Tour (2014-10-24)Instituto Gilberto Gil
Em meio a isso, visitou países da Europa em 2014 divulgando Gilbertos Samba com uma Solo Tour em que cantava e tocava violão em cima de um praticável, em palco simples e estrutura igualmente simplificada, que chegou a definir como:
Gilberto Gil e Flora Gil nos bastidores de apresentação da turnê Gilbertos Samba (2014-04-05)Instituto Gilberto Gil
“Eu, minha mulher (a empresária Flora Gil) e meu violão”.
Gilberto Gil
Gilberto Gil e Flora Gil nos bastidores de apresentação da turnê Gilbertos Samba (2014-04-05)Instituto Gilberto Gil
Gilberto Gil em ensaio fotográfico para álbum Gilbertos Samba (2012)Instituto Gilberto Gil
No palco, tocando seu instrumento preferido, Gil mudou a música do mundo e alcançou a realização.
Gilberto Gil nos bastidores de apresentação da turnê Gilbertos Samba (2014-04-05)Instituto Gilberto Gil
Pesquisa e redação: Ricardo Schott
Montagem: Patrícia Sá Rêgo
Créditos gerais
Edição e curadoria: Chris Fuscaldo / Garota FM Edições
Pesquisa do conteúdo musical: Ceci Alves, Chris Fuscaldo, Laura Zandonadi e Ricardo Schott
Pesquisa do conteúdo MinC: Carla Peixoto, Ceci Alves e Chris Fuscaldo
Legendas das fotos: Anna Durão, Carla Peixoto, Chris Fuscaldo, Daniel Malafaia, Fernanda Pimentel, Gilberto Porcidonio, Kamille Viola, Laura Zandonadi, Lucas Vieira, Luciana Azevedo, Patrícia Sá Rêgo, Pedro Felitte, Ricardo Schott, Roni Filgueiras e Tito Guedes
Edição de dados: Isabela Marinho e Marco Konopacki
Revisão Gege Produções: Cristina Doria
Agradecimentos: Gege Produções, Gilberto Gil, Flora Gil, Gilda Mattoso, Fafá Giordano, Maria Gil, Meny Lopes, Nelci Frangipani, Cristina Doria, Daniella Bartolini e todos os autores das fotos e personagens da históriaTodas as mídias: Instituto Gilberto Gil
*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail atendimentogil@gege.com.br
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