Uma pesquisa coletiva sobre memória LGBT+ e a noite paulista
As histórias e memórias da vida noturna acessam materialidades de práticas cotidianas e reconhecem as boates como importantes espaços de sociabilidade, produção artística e ativismo para pessoas LGBT+.
missboneca66 (1966), de CruzeiroAcervo Bajubá
A arte transformista é um dos primeiros registros que encontramos sobre pessoas dissidentes, participantes de um processo de produção de identidades e de expressões de gênero, que resultaram na leitura que fazemos hoje de quem são as pessoas LGBT+.
IMG_0769 (2023), de Mariano FigueraAcervo Bajubá
Em junho de 2023, o Acervo Bajubá realizou a exposição Porta de Boate, no Bananal Arte e Cultura Contemporânea, espaço cultural que funciona em São Paulo, desenvolvida a partir de um processo de pesquisa e curadoria coletiva de itens do acervo.
Apresentamos aqui cinco eixos: toalha na cabeça (inspirações e primeiras montações), pedraria (materiais, ofícios e tecnologias desenvolvidos pelas artistas), mixtape (performance e a noite), frasqueira (itinerários e circuitos) e after (outros caminhos possíveis para o trabalho de pesquisa).
Toalha na Cabeça
O transformismo é uma arte de exercício de liberdades, e é comum que comece com um momento de experimentações e descobertas. A toalha na cabeça vira picumã, o lençol vira vestido e ganha vida com a dublagem e a interpretação de músicas com microfones improvisados.
3Acervo Bajubá
E como toda criança viada, é basicamente o mesmo esquema. Cabelo é toalha. Uma picumã incrível, né? A bicha achava que tinha um cabelo cacheado que chegava quase no chão. A bata, a bata de banho virava um vestido. E a bicha só ficava girando, girando e cantando... (Lufer Sattui)
Pedraria
Preparar a pele, maquiar-se, pentear a peruca, separar o look, definir o calçado, aquendar, finalizar os enchimentos. Escolher a música, treinar a dublagem e ensaiar a coreografia. Preparar as piadas e dominar o pajubá.
IMG_0768 (2023), de Mariano FigueiraAcervo Bajubá
Artistas transformistas montam suas performances a partir de aprendizados nos bastidores das boates, nos concursos de beleza e na vida cotidiana. Materiais, ofícios e tecnologias sobrevivem ao tempo graças aos relatos das mais experientes.
IMG_9414 (2023), de Alessandro FritzenAcervo Bajubá
Victoria Principal (à esquerda) vendia flores na porta da Homo Sapiens até que um dia Frank Ross notou que ela sabia dublar as músicas e a convidou para se apresentar no palco da Homo Sapiens. Escute o áudio para conhecer como ela iniciou sua carreira.
Mixtape
Apresentadoras, caricatas, parodistas, cantoras, dançarinas, burlescas, misses... Cada tipo de performance precisa encontrar o seu palco. Em São Paulo, encontramos a partir da década de 1970 uma variedade de clubes noturnos nos quais as artistas transformistas se apresentavam.
FL244 F, de Acervo BajubáAcervo Bajubá
Hi-fi, K7, Medieval, Nostro Mondo, Off, Shock, Gay Club, Homo Sapiens, Val Improviso, Prohibido’s, Studio Twenty For, Grant’s, Gent’s, Mad Queen, Tunnel, Danger, Blue Space, são algumas das casas noturnas que compuseram o roteiro de shows de transformismo cidade.
medieval, de Acervo BajubáAcervo Bajubá
Medieval e Nostro Mondo foram duas boates pioneiras de shows de transformismo na noite de São Paulo. Ambas abriram no começo dos anos 1970. Mas, enquanto a Medieval fechou em 1984, a Nostro funcionou até 2014. Escute o aúdio de Yuri Fraccaroli sobre os dois espaços.
Greatta Star apresentando concurso na NostroMondo, de Acervo pessoal Gretta StarAcervo Bajubá
Olha gente, eu não sei o que está acontecendo. Essa música tem muito a ver com a minha vida. Com tudo o que passou. Mas eu queria dizer pra vocês , se vocês tem dúvidas, eu vou tirar as dúvidas de vocês agora. Eu estou soropositiva, só que estou bem. (Gretta Starr)
Frasqueira
Rogéria: a travesti da família brasileira. Desde os anos 1960, ela fez de tudo, carregando sua frasqueira e sua arte para além das casas noturnas. Assim como ela, a partir dos anos 1980, as transformistas circularam na televisão, no teatro e no Carnaval.
rogeria (1990), de Acervo BajubáAcervo Bajubá
O Clube do Bolinha foi um programa de auditório exibido aos sábados pela Rede Bandeirantes, entre 1974 e 1994. Nos anos 1980 e 1990, em um dos seus quadros, “Eles e Elas”, apresentava shows de transformismo.
travestilandia (1979), de Acervo BajubáAcervo Bajubá
Isso nem sempre significou reconhecimento de seu ofício, estabilidade financeira ou respeito pelas expressões de gênero que mobilizaram. O exílio e a migração forçada para o exterior são experiências comuns que perpassam muitas de suas jornadas.
dita (2023), de Alessandro FritzenAcervo Bajubá
Sofá da Dita
Entrevistas realizadas por Dita Absinthe inspiradas no icônico Sofá da Miss Bia da Nostro Mondo, no qual a personagem Herbe, entrevistava celebridades. Participaram: Thalia Bombinha, Gretta Starr, Victoria Principal, Marcinha do Corintho, Ginger Moon, Hinácio King e Júpiter.
After
A festa nunca acaba: nossa pesquisa trouxe para a pista outros temas possíveis: relações entre transformismo e sexualidade, desdobramentos da epidemia de HIV/Aids, concursos de misses, arte drag king e queer, circuitos de economia criativa, etc.
Ok Mag 15 maio 97 p14 15 (1997), de Acervo BajubáAcervo Bajubá
Curadoria
Acervo Bajubá
Pesquisa
Bruno O., Lufer Sattui, Marcos Tolentino, Natan, Rafael Vasconcelos Barboza, Thiago Melo e Yuri Fraccaroli
Apoio
Juan Gonçalves, Julia Gumieri, Otavio Torres e Otavio Oliveira
Produção
Alessandro Fritzen, Bruno O., Lufer Sattui, Marcos Tolentino, Natan, Rafael Vasconcelos Barboza e Thiago Melo
Arte Original
Natan
Design
Bruno O.
Tradução
Bruno O. e Marcos Tolentino
Agradecimentos
Bananal, Grupo de Incentivo à Vida (GIV), Andressa Turner, Ginger Moon, Gretta Star, Hinacio Kuing, Júpiter, Marcinha do Corintho, Thalia Bombinha e Victoria Principal.
Você tem interesse em Natural history?
Receba atualizações com a Culture Weekly personalizada
Tudo pronto!
Sua primeira Culture Weekly vai chegar nesta semana.