Década de 1880
Manuel Maria Bordallo Pinheiro (1880-02-07) de Columbano Bordalo PinheiroMuseu Bordalo Pinheiro
Os primeiros anos da década de 1880, crivados pela morte do avô Manuel Maria, foram marcantes no percurso artístico de Manuel Gustavo.
Trecho dificil (1883) de Columbano Bordalo PinheiroCasa-Museu Anastácio Gonçalves
Manuel Gustavo serviu de modelo ao tio Columbano, em diferentes registos que documentam a sua juventude.
Entre outras telas pintadas por seu tio, destaca-se esta representação de Manuel Gustavo a tocar piano, em atenta interpretação musical.
Desenho de Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (1883-07-01) de Manuel Gustavo Bordalo PinheiroMuseu Bordalo Pinheiro
Os álbuns (ou sketches books) eram uma prática recorrente na aprendizagem de um jovem desenhador, sobretudo destinados a registar vistas do natural, ao ar livre.
O álbum datado de 1883 contém os mais antigos desenhos que conhecemos de Manuel Gustavo, apresentando diversos estudos de figura, a carvão.
Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (1884-07) de Estúdio CamachoMuseu Bordalo Pinheiro
Desde 1884, ano da sua estreia n’ O Antonio Maria com o desenho “Inda é noite…” (01.05.1884), Manuel Gustavo foi presença assídua nos jornais de humor de Rafael Bordalo Pinheiro, afirmando-se como desenhador no jornal Pontos nos ii a partir de 1887, com a publicação de páginas inteiras dedicadas ao cartoon político.
As estadias prolongadas de Rafael Bordalo Pinheiro nas Caldas da Rainha, onde começou a trabalhar na recém-inaugurada Fábrica de Faianças, deram espaço a Manuel Gustavo para se dedicar a este jornal, cabendo-lhe a responsabilidade de desenhar diversos cadernos inteiros da publicação. Também Rafael Bordalo Pinheiro desenhou muitas páginas do jornal nas Caldas da Rainha, tendo Manuel Gustavo de as transpor depois para litografia.
No ano de 1889, em que Rafael está em Paris como responsável pela decoração do Pavilhão de Portugal na Exposição Universal, Manuel Gustavo desenha em exclusivo doze cadernos para os Pontos nos ii.
“Inda é Noite…” (1884-05-01) de Manuel Gustavo Bordalo PinheiroMuseu Bordalo Pinheiro
Em 1884, Manuel Gustavo publicou pela primeira vez no jornal O Antonio Maria.
Rafael anunciava assim o novo colaborador:
'Apresentamos ao público em geral, e aos leitores do 'O Antonio Maria' em particular o nosso morgado, como lá se diz, o herdeiro presuntivo da nossa glória e dos nossos bonecos, a carne da nossa carne e o lápis do nosso lápis (…)'
“Nas Praias” (1884-09-11) de Manuel Gustavo Bordalo PinheiroMuseu Bordalo Pinheiro
E assim foi. Manuel Gustavo abriu caminho com historietas cómicas nos jornais, numa colaboração inicial algo esporádica.
Os temas mundanos, como a ida às praias, foram assuntos que privilegiou.
Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha (c. 1889) de Autor desconhecidoMuseu Bordalo Pinheiro
No ano de 1884, Rafael fundou a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha.
Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro e grupo de jovens caldensesMuseu Bordalo Pinheiro
Ocasionalmente, Manuel Gustavo acompanhava o pai nas idas às Caldas, confraternizando com a juventude e a sociedade caldense, que depois veio a caricaturar.
Manuel Gustavo
Grupo com Rafael Bordalo Pinheiro (1884) de Autor desconhecidoMuseu Bordalo Pinheiro
Encontros familiares foram registados em fotografia. É o caso deste piquenique, ao que parece na Foz do Arelho.
Do lado esquerdo, identifica-se Manuel Gustavo (2), junto ao seu tio Columbano (3), a sua tia Maria Augusta (5). Do lado direito, Rafael, seu pai (5), junto a Elvira, sua mãe (6)."
“A Gestação de um desenho” (1889-07-11)Museu Bordalo Pinheiro
A partir de 1885, Manuel Gustavo teve uma participação cada vez mais ativa no jornal Pontos nos ii.
Herdou do seu pai o gosto em se autorrepresentar como personagem dos seus desenhos, que nos deixam um testemunho divertido da sua personalidade.
É o caso da “Gestação de um desenho”, feito num dia de calor...
... em que a miragem de uma cerveja leva a melhor.
“História Verídica (continuação)” (1892-08-06)Museu Bordalo Pinheiro
Outro exemplo é o de uma “História verídica”, em Coimbra, que merece atenção pelo recurso à máquina fotográfica na novíssima “detetiva”.
“Exposition Universelle – Les Bords de la Seine” (1889-06-29) de MicheletMuseu Bordalo Pinheiro
O ano de 1889 trouxe a ausência paterna e o consequente avolumar de trabalho.
Rafael partiu para Paris para planear e executar a decoração do Pavilhão de Portugal na Exposição Universal, que Manuel Gustavo também visitou.
Exposição Universal de Paris (1889)Museu Bordalo Pinheiro
Número especial dedicado à Exposição Universal de Paris publicado nos Pontos nos ii em 1889.
Pontos nos ii Quinto Anno 1889 (1889-05-01) de Rafael Bordalo PinheiroMuseu Bordalo Pinheiro
Os principais colaboradores dos Pontos nos ii: Manuel Gustavo, Pan Tarântula (Alfredo Morais Pinto), que escreveu muitos do textos desta publicação, e Rafael.
Ao fundo, a recém-inaugurada Torre Eiffel.
Carta de Rafael Bordalo Pinheiro para Manuel Gustavo página 2 (1889-06-17) de Rafael Bordalo PinheiroMuseu Bordalo Pinheiro
O jovem artista teve a oportunidade de desenhar cadernos para o jornal Pontos nos ii, exclusivamente da sua autoria.
Rafael, de Paris, dava-lhe alento:
'Meu querido Manuel, (…)
' (...) Podes estar certo que estás desenhando a par do que se faz melhor em França para isso te tenho mandado todos os jornais que aqui se publicam com maior voga – para assim tu adquirires a confiança em ti de que tanto necessitas. (…)'
Década de 1890
Os temas explorados na obra gráfica do artista mostram um novo gosto que privilegia o desporto, registando o “Lawn-tennis nas Caldas da Rainha”, o “Match de Football” e dando especial atenção à Esgrima e à Velocipedia em registos verídicos ou adaptações à crítica política.
As crónicas da sociedade destacam também a representação de personalidades que se reuniam nas touradas e nos clubes de Cascais ou Estoril, eventos que muitas vezes frequentava.
Apesar da forte componente política dos seus desenhos, em concordância com o panorama do desenho de humor oitocentista, onde é figura de relevo Rafael Bordalo Pinheiro, a representação de novos temas ligados ao comentário social e à ideia de progresso ganham força na sua obra.
A partir da segunda série d’'O Antonio Maria', em 1891, e n’ 'A Parodia' encontramos notícias sobre o novo ritmo da cidade de Lisboa, com notícias sobre os “candeeiros de Lisboa a gaz”, a “novidade elétrica” nos transportes públicos da capital ou o novo conceito de velocidade, aterradora, com o aparecimento dos novos veículos automóveis.
Questões sociais têm também lugar com comentários sobre a emancipação da mulher ou a carestia de vida, denunciando a pobreza e a fome de parte da população.
Carta de Eugénio de Castro para Rafael Bordalo Pinheiro página 2 (1890-06-08) de Eugénio de CastroMuseu Bordalo Pinheiro
Em junho de 1890, Eugénio de Castro, seu amigo, descrevia a personalidade sensível do artista:
'(…) O seu maior defeito é ver o (…)'
Carta de Eugénio de Castro para Rafael Bordalo Pinheiro página 3 (1890-06-08) de Eugénio de CastroMuseu Bordalo Pinheiro
'(…) mundo através dos óculos azuis da desilusão, em vez de o olhar, sarcasticamente, através do monóculo da troça. Porque a verdade é esta, meu amigo, a nossa decadência dá vontade de rir (…)'
"Exposição Colombiana – Secção Portugueza” (1892-12-22) de Rafael Bordalo PinheiroMuseu Bordalo Pinheiro
Em 1892, Manuel Gustavo colaborou com o pai na Exposição Colombiana, em Madrid, e recebeu o título de Cavaleiro da Real Ordem de Isabel a Católica.
“Pessoal da Exposição” (1892-12-30) de Rafael Bordalo PinheiroMuseu Bordalo Pinheiro
“Match de Football” (1894-03-14) de Manuel Gustavo Bordalo PinheiroMuseu Bordalo Pinheiro
Na década de 1890, diversos desenhos remetem para o gosto de Manuel Gustavo pelo desporto, como o futebol, a velocipedia e, também, o ténis, que praticou durante largos anos.
“Página Cascareja” (1894-10-04) de Manuel Gustavo Bordalo PinheiroMuseu Bordalo Pinheiro
Através do desenho, Manuel Gustavo registou ainda presenças assíduas em eventos de convívio com a burguesia abastada de Cascais, no Sporting Club ou no Club do Monte Estoril.
“Folhas do meu caderninho (desenho ingénuo)” (1891-10-08) de Manuel Gustavo Bordalo PinheiroMuseu Bordalo Pinheiro
“Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro” (1906)Museu Bordalo Pinheiro
Manuel Gustavo iniciou a sua carreira como Professor de Desenho na Escola Rodrigues Sampaio, em 1896.
“Os Esgrimistas Reconhecidos” (1892-05-27) de Manuel Gustavo Bordalo PinheiroMuseu Bordalo Pinheiro
Esgrimista amador sob os ensinamentos do Mestre António Martins, Manuel Gustavo participou em matinés de esgrima no Real Ginásio Club Português, em 1886, e nos Torneios do Salão da Trindade, em 1898 e 1899.
“Uma Légua Desastrosa” (1897) de Manuel Gustavo Bordalo PinheiroMuseu Bordalo Pinheiro
Manuel Gustavo compôs bandas desenhadas para as últimas páginas de diferentes revistas ilustradas nacionais, entre 1897 e 1915.
Desportista convicto, muitos dos seus desenhos mostram o seu gosto especial pela velocipedia e o ténis.
COORDENAÇÃO
João Alpuim Botelho e Gisela Miravent
INVESTIGAÇÃO E TEXTOS
Mariana Caldas de Almeida
LEGENDAS
Mariana Caldas de Almeida e Pedro Bebiano Braga
PRODUÇÃO, IMAGEM E DOCUMENTAÇÃO
Cláudia Jorge Freire
IMAGENS EXTERNAS | AGRADECIMENTOS
Arquivo Municipal de Lisboa/Fotográfico
Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves
Fábrica Bordallo Pinheiro – Casa Museu San Raphael
Hemeroteca Municipal de Lisboa
Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado
TRADUÇÃO
Kennis Translations
Continue a sua visita em:
Parte 1: Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro # 1: abrindo caminho (1867-1870)
Parte 3: Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro # 3: um ceramista que começa (1900s)
Parte 4: Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro # 4: humor no quotidiano (1910-1920)
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