Década de 1910
A aproximação ao movimento Moderno em Portugal deu-se a partir de 1911 e, em 1912, com o 1º Salão dos Humoristas Portugueses, cuja Sociedade Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro presidiu, como figura conciliadora entre o “velho” e o “novo” desenho humorístico português. O artista participou nas duas primeiras exposições do Grupo de Humoristas (1912 e 1913) ao lado de nomes da nova geração como Cristiano Cruz (1892-1951), Almada Negreiros (1893-1970), Stuart Carvalhais (1887-1961), bem como de outros artistas, ditos «tradicionalistas», como Francisco Valença (1882-1962) e Alfredo Cândido (1879-1960). Estes últimos, herdeiros do desenho de humor de Rafael Bordalo Pinheiro, favoreciam a caricatura de índole política, ao contrário dos «novos», cuja linha estilizada dava destaque ao comentário social e impessoal. Entre 1913 e 1916, salienta-se a sua colaboração na revista de grande tiragem 'Ilustração Portugueza'. Os novos temas acompanham as circunstâncias políticas e sociais do início do século, como a luta sufragista, a recém-implantada república, o comentário à Grande Guerra que tem destaque evidente e, claro, as novas modas femininas ou o crescimento urbano de Lisboa.
Em 1916, colaborou com empenho na fundação do Museu Bordalo Pinheiro junto do colecionador Artur Ernesto Cruz Magalhães (1864-1928), dedicado admirador da obra de Rafael Bordalo Pinheiro. Terá sido a última grande homenagem a seu pai.
Doou dezenas de peças da sua coleção pessoal ao Museu, incluindo gravuras, pinturas e desenhos originais de Rafael Bordalo Pinheiro, bem como correspondência e fotografias, muitas delas identificadas no verso com o seu carimbo “MGUST”.
Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (c. 1915)Museu Bordalo Pinheiro
“O Grou e a Raposa (Jardim da Estrela) por Manuel G. B. Pinheiro” (1917-11-12) de M. C. RamosFonte original: Hemeroteca Municipal de Lisboa
No âmbito do Congresso de Turismo de 1911, Manuel Gustavo fez representar a Fábrica com uma exposição no Ateneu Comercial de Lisboa e conseguiu uma venda considerável de faianças à Câmara Municipal de Lisboa para decoração do Jardim da Estrela.
[Ilustração Portuguesa, 01.03.1920]
"Natal 1915" (1915-12-06)Fonte original: Hemeroteca Municipal de Lisboa
Apesar da intensa dedicação à cerâmica a que as circunstâncias obrigaram, Manuel Gustavo manteve o seu trabalho gráfico junto de uma nova geração de humoristas que se vinha afirmando no país.
[Ilustração Portuguesa, 06.12.1915]
A Sátira (1911-06-01) de Francisco ValençaMuseu Bordalo Pinheiro
Foi lançada n’A Satira a ideia de uma sociedade de humoristas:
'Assim se pensou e assim se fez. Os rebeldes e indomáveis humoristas, boémios e vagabundos, despreocupados do dia seguinte, acabam de prender mais curtos os seus instintos de vida airada, e resolveram dar-se as mãos. A caricatura não serve só para desmandibular as multidões num riso animal. Tem uma grave responsabilidade perante a história, qual seja a da conceção dos costumes.'
“Um Trecho da Exposição (…)” (1912-05-20)Fonte original: Hemeroteca Municipal de Lisboa
A presidência da Sociedade dos Humoristas coube a Manuel Gustavo, herdeiro da dita caricatura “bordaliana”, conciliando o “velho” e o “novo” desenho humorista português.
Na margem superior, "um trecho da exposição" e, em baixo, à esquerda, o desenho “Elegância e Economia ou as calças do Papá”, que Manuel Gustavo expôs no salão de 1912 e que hoje se encontra desaparecido.
Ao centro, fotografia dos artistas onde se destacam Jorge Barradas, Francisco Valença, Menezes Ferreira, Manuel Gustavo, Almada Negreiros e Cristiano Cruz.
“A Exposição dos Humoristas” (1912-05-16) de Hipólito CollombFonte original: Hemeroteca Municipal de Lisboa
Manuel Gustavo participou nos dois primeiros Salões dos Humoristas realizados em Lisboa, em 1912 e 1913, ao lado de Alonso, Stuart e dos “novos” Emmerico Nunes, Barradas e Cristiano Cruz.
[O Século Ilustrado, 16.05.1912]
Estudos (1813-1916) de Manuel Gustavo Bordalo PinheiroMuseu Bordalo Pinheiro
No período entre 1913 e 1916, Manuel Gustavo realizou inúmeros desenhos a tinta-da-china que viriam a ser publicados na revista Ilustração Portugueza, de grande aceitação, sobretudo nos centros urbanos.
Modas e temas do quotidiano ou notícias da Grande Guerra acompanhavam crónicas de Júlio Dantas e Mário de Almeida, dando a notícia da semana ou o comentário social do momento, em primeira página.
Nestes estudos, o artista deixava notas ao gravador, dando informação sobre o tamanho da ilustração, o título, etc..
“O Murro demonstrativo”, publicado na Ilustração Portugueza, 02.08.1915.
“Eva Moderna”, publicado na Ilustração Portugueza, 22.06.1914.
“El rei «chauffer»”, publicado na Ilustração Portugueza, 07.02.1916.
Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro de CamachoMuseu Bordalo Pinheiro
O artista desempenhou um cargo público, entre 1913 e 1917, como membro da vereação de Lisboa pelo Partido Republicano Português (Democrático).
Angélica Barreto Bordalo Pinheiro (c. 1914)Fonte original: Fábrica Bordallo Pinheiro | Casa Museu San Raphael
Em 28 fevereiro de 1914, Manuel Gustavo casou com Angelica Barreto da Cruz, da qual se conhecem raros retratos.
“Braga, aspeto da exposição de faiança das Caldas da Rainha (…)” (1914-06-22)Fonte original: Hemeroteca Municipal de Lisboa
Manuel Gustavo continuou a desenvolver trabalhos de ilustração para revistas de renome.
A partir de 1914, continuou a sua carreira de Professor na Escola de Cerâmica de Lisboa.
Em 1914 e 1915, inaugura exposições em Braga, Viana do Castelo e Guimarães.
[Ilustração Portuguesa, 22.06.1914]
“Exposição de faianças da fabrica Bordalo Pinheiro realisada em Guimarães (…)” (1915-08-09)Fonte original: Hemeroteca Municipal de Lisboa
[Ilustração Portuguesa, 09.08.1915]
"Um «pic-nic» no Conventinho (…)” (1911-10-16)Fonte original: Hemeroteca Municipal de Lisboa
Alguns registos fotográficos ilustram momentos de lazer em piqueniques elegantes nas Caldas da Rainha, em banquetes de homenagem e em torneios de ténis em que o artista participou.
[Brasil Portugal, 16.10.1911]
Momento de lazer que terminou com a habitual fotografia de grupo.
Reconhecemos, ao centro, Manuel Gustavo. Muitas outras personalidades estão identificadas na legenda que corre a margem inferior da página.
“No Banquete d’homenagem ao ilustre escritor Julio Dantas (…)” (1913-12-29)Fonte original: Hemeroteca Municipal de Lisboa
[Ilustração Portuguesa, 29.12.1913]
“Torneio de “tennis” nas Caldas da Rainha" (1917-11-12)Fonte original: Hemeroteca Municipal de Lisboa
[Ilustração Portuguesa, 12.11.1917]
Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (c. 1917)Museu Bordalo Pinheiro
Museu Rafael Bordalo Pinheiro (c. 1926)Museu Bordalo Pinheiro
Manuel Gustavo acompanhou a criação do Museu Bordalo Pinheiro, uma iniciativa do colecionador Artur Cruz de Magalhães.
Artur Cruz Magalhães (1916)Museu Bordalo Pinheiro
Meses antes de morrer, em tom de desabafo, escreveu a Artur Cruz de Magalhães:
'Todo o meu empenho agora é continuar cá no meu cantinho, com a minha gente, com os meus velhos operários, ali, naquele pedacito de San Rafael, ao pé daquelas lindas arvores seculares (..) enfim naquela fabrica Bordalo Pinheiro que é obra minha e só minha e à qual quero como quem quer uma filha. V. que tem alma de artista compreende este amor não é verdade?'
Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro de Arnaldo da FonsecaMuseu Bordalo Pinheiro
Em 1918, o artista fez uma viagem a França e contactou com os principais centros de produção de cerâmica.
Diploma da Ordem de S. Tiago da Espada (1920)Museu Bordalo Pinheiro
Manuel Gustavo recebeu pelas mãos do ministro da Instrução Pública o Grau de Oficial da Ordem de S. Tiago da Espada.
Continuidade e Modernidade
Manuel Gustavo foi um artista completo e multifacetado que fez uso de uma importante herança paterna à qual dedicou toda a sua vida. Conseguiu inovar nos seus trabalhos gráficos e cerâmicos, encontrando um equilíbrio entre o legado de Rafael Bordalo Pinheiro e a modernidade do início do século XX, aproximando-se de uma nova linguagem que dava resposta à jovem geração de leitores e de diferentes públicos da sua Fábrica.
Defendeu como nenhum outro a herança artística de Rafael Bordalo Pinheiro e teve como grande ambição internacionalizar a indústria cerâmica das Caldas da Rainha, como nos escreve em 1909:
"Jurei a mim mesmo luctar até à última para continuar e sustentar esta indústria tão pitoresca, tão portugueza e apesar de tantos sacrifícios anima-me sempre a ideia de que talvez um dia encontre alguém, capaz de me proporcionar elementos para me alargar até aos grandes centros da Europa e da América e poder trabalhar enfim, com socego e desassombro. É esta a esperança que me faz viver". (Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro, Faianças Artísticas das Caldas da Rainha 3ª Exposição [3ª Exposição Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha], 1909)
Manuel Gustavo Bordalo (1867-1920) (2013)Museu Bordalo Pinheiro
COORDENAÇÃO
João Alpuim Botelho e Gisela Miravent
INVESTIGAÇÃO E TEXTOS
Mariana Caldas de Almeida
LEGENDAS
Mariana Caldas de Almeida e Pedro Bebiano Braga
PRODUÇÃO, IMAGEM E DOCUMENTAÇÃO
Cláudia Jorge Freire
IMAGENS EXTERNAS | AGRADECIMENTOS
Arquivo Municipal de Lisboa/Fotográfico
Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves
Fábrica Bordallo Pinheiro – Casa Museu San Raphael
Hemeroteca Municipal de Lisboa
Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado
TRADUÇÃO
Kennis Translations
Continue a sua visita em:
Parte 1: Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro # 1: abrindo caminho (1867-1870)
Parte 2: Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro # 2: histórias desenhadas (1880s-1890s)
Parte 3: Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro # 3: um ceramista que começa (1900s)
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