Ganhadeiras

Tipos de rua de Erotides de Araújo

Erotides Américo de Araújo Lopes

Pouco sabemos sobre o escultor baiano Erotides Américo de Araújo Lopes, especialista em miniaturas, nascido em 1847. Um de seus trabalhos mais conhecidos é a série Tipos de rua, que se encontra exposta no Museu Histórico Nacional. 

Vendedores das ruas e prestadores de serviços do século 19 (1867/1890), de Erotides Américo de Araújo LopesMuseu Histórico Nacional

Tipos de rua

A série é composta por um conjunto de esculturas em madeira que retratam perfis de trabalhadores negros e negras presentes nas ruas do Brasil escravista. 

Vendedores das ruas e prestadores de serviços do século 19 (1867/1890), de Erotides Américo de Araújo LopesMuseu Histórico Nacional

Desse grupo de miniaturas, selecionamos as figuras femininas por elas representarem “as ganhadeiras”, uma forma de trabalho bastante praticada por mulheres negras, tanto escravizadas quanto livres e libertas. 

Vendedora de mamãoMuseu Histórico Nacional

Ganhadeiras escravizadas, livres e libertas

O “ganho” foi um sistema de trabalho desempenhado por pessoas escravizadas, livres e libertas nas épocas do Brasil colonial e imperial, quando ganhadeiros e ganhadeiras exerciam atividades diversas, especializadas ou não. 

Vendedora de bananasMuseu Histórico Nacional

As mulheres destacavam-se no pequeno comércio circulando pelas ruas com seus tabuleiros  de frutas, doces, quitutes e peixes, equilibrados sobre suas cabeças ou oferecendo seus produtos em pontos fixos pela cidade.

Vendedora de peixesMuseu Histórico Nacional

As escravizadas colocadas no regime de ganho por seus senhores deveriam devolver a eles uma quantia oriunda do seu trabalho em data pré-estabelecida. Tal sistema possibilitava que muitas delas utilizassem o excedente na compra de suas alforrias.

Vendedora de peixesMuseu Histórico Nacional

As mulheres livres ou alforriadas eram donas do seu próprio ganho, conseguindo sua sobrevivência e  alcançando até mesmo uma certa prosperidade econômica. 

Negra peixeiraMuseu Histórico Nacional

“Morar sobre si”

O desenvolvimento do sistema de ganho ampliou a mobilidade das escravizadas nos centros urbanos. Passando boa parte do tempo nas ruas, elas conquistaram maior autonomia de movimentos, modificando sua vida cotidiana. 

Vendedora de frutasMuseu Histórico Nacional

Algumas ganhadeiras escravizadas negociavam a possibilidade de não morar com seus senhores. Entretanto, a permanência fora da casa do senhor implicava  garantir seu próprio sustento.

Vendedora de frutasMuseu Histórico Nacional

Longe da visão do senhor, escolhiam com mais liberdade seus companheiros, construíam laços familiares e de amizades, e criavam seus filhos.

Baiana endomingadaMuseu Histórico Nacional

Acordos pré-nupciais

O matrimônio poderia assegurar melhores condições de vida para algumas mulheres, mas para outras, sobretudo as livres e libertas, quando prósperas no comércio, corriam o risco de perder suas economias para os maridos.

Baiana endomingadaMuseu Histórico Nacional

Embora os acordos pré-nupciais não fossem raros no Brasil colonial, impressiona o número de mulheres libertas que buscavam tais acertos como uma estratégia para conservar o patrimônio adquirido com tanto esforço. 

Penca de balangandãs (1885 (circa)), de DesconhecidoMuseu Histórico Nacional

O cuidado em preservar as economias acumuladas demonstrava algum poder econômico, além do desejo de transmiti-las a seus filhos, afilhados ou a quem mais de sua escolha. 

Escrava de ganho - vendedoraMuseu Histórico Nacional

Crianças

Além dos serviços diários, as escravizadas tinham a sua jornada de trabalho acrescida pelos cuidados referentes à gravidez e à maternidade.

Um mercado no Rio de Janeiro, Brasil (1847 (circa)), de Adolphe D’ HastrelMuseu Histórico Nacional

As mães escravizadas levavam seus filhos atados às costas durante suas atividades comerciais ou os deixavam com as mulheres mais velhas ou com as crianças cativas maiores. Isso possibilitou a construção de redes de solidariedade e de proteção mútuas.

Chafariz das Marrecas (1830/1839), de Armand Julien PallièreMuseu Histórico Nacional

Apresentação da Viradouro

Inspirada nas Ganhadeiras de Itapuã, grupo musical de mulheres que enaltecem sua ancestralidade por meio de cantigas, a escola de samba Unidos do Viradouro apresentou um samba-enredo em homenagem a essas mulheres. 

Para saber mais
FARIA, Sheila de Castro. “Mulheres forras: riqueza e estigma social”. In: Revista Tempo, nº 9, jul. 2000 https://www.redalyc.org/pdf/1670/167018237005.pdf (visto em 31/08/2022).

MATTOSO, Kátia Queiroz. “O filho da escrava (em torno da Lei do Ventre Livre)”. In: São Paulo: Revista Brasileira de História, vol. 8, nº 16, 1988. https://anpuh.org.br/index.php/revistas-anpuh/rbh (visto em 14/09/2022).

REIS, João José e SILVA, Eduardo. Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras. https://pt.scribd.com/document/564134536/Negociacao-e-Conflito-a-Resistencia-Negra-No-Brasil-Escravista (visto em 06/09/2022).

SANTOS, Ynaê Lopes dos. Além da senzala: arranjos escravos de moradia no Rio de Janeiro (1808-1850). Tese de mestrado. São Paulo: USP, 2006. https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-10072007-113154/publico/TESE_YNAE_LOPES_SANTOS.pdf (visto em 01/09/2022).

_____. “Autonomia escrava na formação do Estado nacional brasileiro: o caso do morar sobre si no Rio de Janeiro”. In: São Paulo: e-a, nº 6, 2007 https://www.revistas.usp.br/alb/article/view/11674 (visto em 08/09/2022).

SOARES, Cecília Moreira. “As ganhadeiras: mulher e resistência negra em Salvador no século XIX”. In: Salvador: Afro-Ásia, nº 17, 1996. https://periodicos.ufba.br/index.php/afroasia/article/view/20856/13456 (visto em 31/08/2022).

SOUSA, Caroline Passarini; TARDIVO, Giovana Puppin; HAACK, Marina Camilo. “Localizando a mulher escravizada nos mundos do trabalho”. In: Niterói: Revista Cantareira, nº 34, 2021. https://periodicos.uff.br/cantareira/article/view/44322 (visto em 14/09/2022).

“Ganhadeiras de Itapuã”, samba-enredo do Grêmio Recreativo Escola de Samba Viradouro de 2020, de autoria de Cláudio Russo, Paulo César Feital, Diego Nicolau, Júlio Alves, Dadinho, Rildo Seixas, Manolo, Anderson Lemos e Carlinhos Fionda.

Créditos: história

Texto e pesquisa
Daniele Del Giudice de Andrada

Montagem
Adriana Bandeira Cordeiro
 
Reproduções fotográficas
Jaime Acioli

Agradecimentos
Álvaro Marins de Almeida
Bárbara Deslandes Primo
Daniella Gomes dos Santos
George de Abreu
Jaime Acioli
Maria do Carmo Rainho
Simone Kimura 
Valéria Regina Abdalla Farias

Créditos: todas as mídias
Em alguns casos, é possível que a história em destaque tenha sido criada por terceiros independentes. Portanto, ela pode não representar as visões das instituições, listadas abaixo, que forneceram o conteúdo.
Ver mais
Tema relacionado
Consciência Negra no Brasil
Explore as histórias, artes e culturas da experiência negra no Brasil.
Ver tema
Google Apps