Mestiço

Descubra os detalhes e as histórias por trás da obra icônica de Candido Portinari

Mestiço (1934), de CandIdo PortinariPinacoteca de São Paulo

Sua pele, seu cabelo e a ausência de vestimentas nos dão pistas sobre sua identidade étnica e sua condição social.

Os olhos deste personagem estão na altura da linha do horizonte, que, por definição, é para onde normalmente nosso olhar se dirige. Assim, ele nos encara diretamente; seu olhar e seu rosto nos transmitem orgulho, sem chegar à arrogância; também podemos perceber sua dignidade, tranqüilidade, força e a ausência de tensão.

A figura humana se sobrepõe com grande destaque sobre a paisagem rural, ocupando o espaço central, bloqueando nossa visão das plantações e de seu provável local de trabalho, quase conferindo ao ambiente o aspecto de um cenário.

Outro recurso utilizado para dar a sensação de profundidade é a repetição de formas com tamanho menor à medida que se distanciam, como a diminuição do tamanho dos postes que compõem a cerca.

As sombras da paisagem são menos contrastadas, enfatizando a impressão de estarem mais distantes, ou banhadas pelo sol num ângulo distinto do da figura.

As pinceladas do artista são fortes e visíveis tanto na figura quanto nos diversos elementos que representou no quadro, embora possamos perceber a mudança da direção e do movimento da mão que as originou.

A predominância da cor da pele do personagem assume um valor simbólico no contexto histórico de nosso país, remetendo ao título da pintura.

Na composição do quadro, além da forte presença de uma linha imaginária no eixo vertical central, que atravessa o corpo do personagem, podemos perceber a divisão da tela em seis faixas horizontais, que se prolongam na paisagem a partir de referências da figura, divididas pelas alturas de: olhos, boca, ombros, mãos e cotovelos. Perceba que o torso nu pode ser contido em um quadrado imaginário, dentro do retângulo da tela.

O espaço superior se divide em três retângulos imaginários, ocupados pela cabeça e pelos dois recortes da paisagem.

É importante lembrar que uma das principais buscas do modernismo da década de 1920 (antecedente à produção desta pintura) era resolver os dilemas dos séculos anteriores com relação à natureza da identidade brasileira. Um dos resultados da formação social do país, desde a época colonial, foi uma mistura étnica que mesclava índios, negros e brancos de origem européia, constituindo um tipo de difícil definição identitária, muitas vezes tendo em comum apenas a prática do trabalho agrário, base econômica do Brasil.

O preconceito contra a mestiçagem era tão grande no final do século XIX, a ponto de gerar comentários como este: o “conde de Gobineau, embaixador francês junto à corte do imperador d. Pedro II, diria que o Brasil, por ser formado majoritariamente por mestiços, estava fadado ao desaparecimento enquanto povo”. A publicação, na década de 30, do livro "Casa-grande & Senzala", escrito por Gilberto Freyre, é uma resposta a essa visão preconceituosa.

Segundo Marcelo Paixão, em Freyre, “A glorificação do tipo mestiço passava a ser, concomitantemente, uma saída ideológica para os impasses ao desenvolvimento – agora não mais compreendido dentro da chave racial – e um instrumento de constituição de uma identidade nacional...

(...) De acordo com o aporte freyriano, portanto, a herança cultural dos povos formadores da nacionalidade brasileira, a despeito de seus tantos defeitos, formaria o nosso próprio traço identitário comum. Dessa forma, a longa era Vargas pode ser definida tanto pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) ou pela intervenção estatal na vida econômica como pela elevação do mito da democracia racial ao caráter de uma ideologia de Estado”.

A representação do Mestiço por Portinari pode ser vista, assim, como uma tentativa de personificar positivamente uma determinada noção de identidade do brasileiro.

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