Indumentária de Aziri Tobosi (Iemanjá)

O traje da divindade das águas

Traje de Iemanjá (2023/2023), de DesconhecidoMuseu Histórico Nacional

Ponto para Iemanjá
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“Vestir o orixá é algo muito maior e profundo do que o vestir cotidiano; é um ato religioso.” (Patrícia Ricardo de Souza)

Traje de IemanjáMuseu Histórico Nacional

As indumentárias de orixás são componentes relevantes no candomblé. Concebidas e confeccionadas com uma disposição própria de cores, nós e símbolos, traduzem a importância de que os “orixás devem ser a expressão máxima de beleza de um terreiro” (Patrícia R. de Souza).

Traje de Iemanjá EsquerdaMuseu Histórico Nacional

As equedes, que integram a alta hierarquia do terreiro, são as mulheres cujo cargo é cuidar dos orixás. Elas vestem e dançam com os orixás. O zelo caprichoso no trato inclui o dever de lavar, passar e engomar as roupas, lustrar e limpar as ferramentas e os acessórios.

Traje de Iemanjá CostasMuseu Histórico Nacional

A indumentária utilizada pelo praticante é um indício de sua função, hierarquia e antiguidade no terreiro. O tamanho dos colares, o uso ou não de sandálias, bata e pano da costa, além da própria suntuosidade da roupa, denotam a posição de quem a utiliza.

Traje de IemanjáMuseu Histórico Nacional

Ponto para Yamanjá
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Aqui temos o gogre, uma gargantilha com contas azuis, cor associada a Iemanjá, cuja função é estabelecer o vínculo entre orixá e iniciado. E também o mokan, colar que vai do pescoço ao umbigo, feito de palha da costa, usada como proteção contra os eguns.

Traje de Iemanjá DireitaMuseu Histórico Nacional

Também feitos com palha da costa para afastar os eguns, temos o contraegun – trança que fica na parte superior do braço – e a umbigueira – utilizada na cintura. Ambas têm o intuito de proteger o iniciante de qualquer energia negativa que possa atrapalhar o seu caminho.

Traje de Iemanjá EsquerdaMuseu Histórico Nacional

As guias, que conectam o devoto aos seus orixás, são compostas pelas contas (no jeje, ian ou ianan).

Traje de IemanjáMuseu Histórico Nacional

singue é composta de duas tiras de pano branco usadas na altura do peito. O adê, adorno de cabeça de divindades femininas, simboliza o mistério das mães ancestrais e esconde parcialmente o rosto do praticante, criando o efeito de fusão da sua expressão facial com a do orixá.

Assentamentos, de DesconhecidoMuseu Histórico Nacional

Os objetos sagrados que simbolizam o orixá formam os assentamentos, também conhecidos como igbá ou ibá. Compostos por itens que captam as energias da natureza associadas ao orixá, vinculam espiritualmente o iniciado, que recebe as energias emanadas pelo orixá ali representado.

Assentamentos, de DesconhecidoMuseu Histórico Nacional

Cada adepto tem seus próprios assentamentos, que o acompanharão por toda a vida. Formados por alguidar, quartinha, pratos, ferramenta e pedra relacionadas ao orixá, precisam ser lavados com folhas específicas e mantidos com água e alimentos próprios de cada orixá.

Objetos da coleção Zaira Trindade, de DesconhecidoMuseu Histórico Nacional

A coleção Zaira Trindade, adquirida em 1999, permaneceu por anos na reserva técnica do museu, inacessível aos visitantes, devido ao receio de seus profissionais em desrespeitar a religião de matriz africana, sobre a qual não tinham conhecimentos suficientes.

Vinda de Tat’etu Lengulukenu ao Museu para verificar a coleção, Jessica Ellen Fernandes da Silva, Prof. Aline Montenegro Magalhães (ex-Diretora do Museu Histórico Nacional) e o Prof. Alexandre Ribeiro Neto também participaram da visita ao acervo.Museu Histórico Nacional

Em 2018, a partir de rodas de conversa promovidas pelo MHN com representantes do movimento negro, originou-se uma curadoria compartilhada entre seus técnicos e Tat’etu Lengulukenu, dirigente espiritual da InzoUnsata Ria Inkosse, para o tratamento especializado da coleção.

Parte da coleção Zaira Trindade, de DesconhecidoMuseu Histórico Nacional

Responsável pela identificação e classificação dos itens da coleção, Tat’etu teve como desafio a quase inexistência de informações espirituais sobre Zaira Trindade, o que o fez procurar por dotes e mejitós para auxiliá-lo no cuidado com as peças.

Parte da coleção Zaira Trindade em exposiçãoMuseu Histórico Nacional

A aquisição dessa coleção é parte de um contexto iniciado nos anos 1980 com a redemocratização do Brasil após a ditadura cívico-militar. Nesse período, o MHN passou por um processo de revitalização, impulsionado pelos novos debates oriundos da Museologia, História e Antropologia.

Medalha comemorativa em cobre - Homenagem do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro à Princesa Isabel pela assinatura da Lei Áurea Medalha comemorativa em cobre - Homenagem do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro à Princesa Isabel pela assinatura da Lei Áurea (1888), de DesconhecidoMuseu Histórico Nacional

No início, as aquisições do MHN pautavam-se em valores ligados às elites, e buscavam ensinar um passado glorioso através dos objetos. A expografia exaltava heróis nacionais, homens do Estado, aristocracia e círculos militares, ficando negros e indígenas em posições subordinadas.

Exposição "10 objetos". Acervo do Museu Histórico Nacional (2023/2023), de DesconhecidoMuseu Histórico Nacional

O movimento de renovação do Museu Histórico Nacional levou a uma busca pela ampliação da diversidade de representações sociais da história do Brasil. O recebimento da coleção Tsiipré foi um marco nesse contexto, ao qual, anos depois, se somou a coleção Zaira Trindade.

Traje de IemanjáMuseu Histórico Nacional

Ponto para Yemanjá
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Tal processo não é linear nem chegou ao fim; trata-se de um reflexo das dinâmicas presentes na sociedade. Uma sociedade violenta com a cultura afrodiaspórica, sobretudo com as religiões, cujos terreiros, segundo Lélia Gonzalez, são “verdadeiros centros de resistência cultural”.

Referências
Aline Montenegro Magalhães. Da diáspora africana no Museu Histórico Nacional: um estudo sobre as exposições entre 1980 e 2020.
José Roberto Lima Santos. O guarda-roupas de candomblé: ancestralidade, devoção e tradição afro-brasileira. e Indumentárias de orixás: arte, mito e moda no rito afro-brasileiro.
Lélia Gonzalez. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Flavia Rios e Márcia Lima (org.). Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

Lucas Marques. Fazendo orixás: sobre o modo de existência das coisas no candomblé.
Maria Stella de A. Santos (Ialorixá Stella de Oxóssi). Meu tempo é agora. 2. ed. Salvador: Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, 2010.
Mario de Souza Chagas e Solange de Sampaio Godoy. Tradição e ruptura do Museu Histórico Nacional.
Patrícia Ricardo de Souza. A estética do candomblé: fazendo axós, tecendo axé.

Tat’etu Lengulukenu. Indumentária de Iemanjá. In: Histórias do Brasil em 100 objetos. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2022.
https://drive.museus.gov.br/index.php/s/B2atn59L13PZnOs

Créditos: história

Texto e pesquisa 
Daniele Del Giudice  
Patricia Henriques Mafra 
 
Montagem
Adriana Bandeira Cordeiro
 
Reproduções fotográficas 
Jaime Acioli 
Geyzon Dantas 
Giselle Bastos 
Laissa Souza 
Pepe Schettino 
   
Agradecimentos 
Alexandre Ribeiro Neto
Aline Montenegro Magalhães
André Amud Botelho 
Daniella Gomes dos Santos 
Diogo Tubbs 
George de Abreu
Geyzon Dantas 
Giselle Bastos 
Jaime Acioli 
Jessica Ellen Fernandes da Silva
Juarez Guerra 
Laissa Souza 
Moana Soto 
Paula Aranha 
Pepe Schettino  
Tat’etu Lengulukenu
Valéria Regina Abdalla Farias

Créditos: todas as mídias
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