A festejar o 15.º aniversário!

Uma breve história da vacinação

Descubra a história destas injeções que salvam vidas

Rudolf Jorysz receiving a vaccine (ca. 1945-1947) de unknownFonte original: https://objekte.jmberlin.de/object/jmb-obj-703939

Durante vários séculos, os seres humanos procuraram formas de se protegerem contra doenças mortais. A história da imunização é longa, passando por experiências e riscos até à implementação global de vacinas durante uma pandemia sem precedentes. 

La vaccination antirabique. Affiche destinée à l'enseignement scolaire v. 1960. L'enfant, supposé être Joseph Meister se fait vacciner en présence de Louis Pasteur, de médecins et de sa mère en costume d'alsacienne. de Editions Rossignol - Montmorillan. Vienne.Institut Pasteur

A investigação sobre vacinas pode levantar questões éticas complexas, e algumas das experiências realizadas no passado para o desenvolvimento de vacinas não seriam eticamente aceitáveis atualmente. As vacinas salvaram mais vidas humanas do que qualquer outra invenção médica na história. 

Desloque a página para embarcar numa viagem pelo último milénio e ver como estas extraordinárias descobertas e conquistas mudaram as nossas vidas.

Early Chinese & Indian Inoculation (Variolation)- 1000 CENational Council of Science Museums

Desde o século XV ao século XVIII

Desde, pelo menos, o século XV, as pessoas em diferentes partes do mundo tentavam prevenir doenças ao expor intencionalmente pessoas saudáveis à varíola numa prática conhecida como variolação (derivação do francês "la variole"). Algumas fontes sugerem que estas práticas ocorriam já no ano 200 AEC. 

Registos escritos de meados do século XVI descrevem uma forma de variolação usada na China e conhecida como insuflação, em que as crostas das feridas de varíola eram secas, moídas e sopradas para a narina com um tubo!

Jenner Edward 1749-1823LIFE Photo Collection

Em 1721, Lady Mary Wortley Montagu trouxe a inoculação da varíola para a Europa, pedindo que suas duas filhas fossem vacinadas contra a varíola, como ela havia observado na Turquia.

Em 1774, Benjamin Jesty fez uma descoberta. Testou a sua hipótese de que a infeção com varíola bovina, um vírus bovino passível de contagiar humanos, podia proteger uma pessoa contra a varíola. 

Em maio de 1796, o médico inglês Edward Jenner desenvolveu esta descoberta e inoculou James Phipps, de 8 anos, com matéria de uma ferida de varíola bovina colhida da mão de uma leiteira. Apesar de ter sofrido uma reação local e de se ter sentido mal durante vários dias, Phipps recuperou totalmente.

Edward Jenner vaccinating a boy (painting). (1884/1884) de E.-E. HillemacherFonte original: Wellcome Collection

Dois meses mais tarde, em julho de 1796, Jenner inoculou Phipps com matéria de uma ferida de varíola humana para testar a resistência do mesmo. Phipps continuou em perfeito estado de saúde e tornou-se o primeiro ser humano vacinado contra a varíola. O termo "vacina" foi cunhado mais tarde a partir da palavra em latim para vaca (vacca).

história da vacinação contra a varíola

Pasteur Louis 1822-1895 French Chemist And BacteriologistLIFE Photo Collection

Século XIX

Em 1872, apesar de ter sofrido um AVC e enfrentado a morte de duas das suas filhas com tifoide, Louis Pasteur criou a primeira vacina produzida em laboratório: a vacina contra a cólera aviária nas galinhas.

Œuvre d’Albert Edelfelt (1886) de Albert EdelfeltInstitut Pasteur

Em 1885, Louis Pasteur foi bem-sucedido na prevenção da raiva através da vacinação pós-exposição. O tratamento foi controverso. Pasteur já tinha tentado, sem sucesso, usar a vacina em seres humanos duas vezes, e injetar um ser humano com um agente patogénico ainda era um método novo e incerto. 

Pasteur não era médico. Contudo, apesar do risco, iniciou um programa de 13 injeções com o paciente Joseph Meister, cada uma delas contendo uma dose mais forte do vírus da raiva. Meister sobreviveu e, mais tarde, tornou-se zelador do túmulo de Pasteur em Paris.

De Albert FennLIFE Photo Collection

Em 1894, a Dra. Anna Wessels Williams isolou uma estirpe da bactéria da difteria fundamental para o desenvolvimento de uma antitoxina da doença.

To Prevent Influenza (1918-10-18) de Connecticut State Council of DefenseArkansas State Archives

Século XX

Entre 1918 e 1919, estima-se que a pandemia de gripe espanhola tenha matado 20 a 50 milhões de pessoas em todo o mundo, incluindo 1 em cada 67 soldados dos EUA. Este facto fez com que uma vacina contra a gripe se tornasse uma prioridade militar dos EUA. Foram realizadas as primeiras experiências com vacinas contra a gripe: a faculdade de medicina do exército dos EUA testou 2 milhões de doses em 1918, mas os resultados foram inconclusivos.

história da vacinação contra a Influenza

De Hansel MiethLIFE Photo Collection

Em 1937, Max Theiler, Hugh Smith e Eugen Haagen desenvolveram a vacina 17D contra a febre amarela. A vacina foi aprovada em 1938, e mais de um milhão de pessoas foram vacinadas nesse ano. Theiler viria a receber o Prémio Nobel.

De Eliot ElisofonLIFE Photo Collection

Em 1939, as bacteriologistas Pearl Kendrick e Grace Eldering demonstraram a eficácia da vacina contra a tosse convulsa. As cientistas demonstraram que a vacinação reduzia as taxas de infeção das crianças de 15,1 para 2,3 por cada 100 crianças.

Time Covers - The 50S (1954-03-29)LIFE Photo Collection

Em 1945, foi aprovada a primeira vacina contra a gripe para uso militar, seguindo-se a aprovação para uso civil em 1946. A investigação foi liderada pelos médicos Thomas Francis Jr e Jonas Salk, tendo ambos estado posteriormente associados à vacina contra a poliomielite. 

Entre 1952 e 1955, Jonas Salk desenvolveu a primeira vacina eficaz contra a poliomielite, e começaram os ensaios. Salk testou a vacina em si próprio e na sua família no ano seguinte. Em 1954, tiveram lugar ensaios em massa que envolveram mais de 1,3 milhões de crianças.

De Lynn PelhamLIFE Photo Collection

Em 1960, foi aprovado para uso um segundo tipo de vacina contra a poliomielite, desenvolvido por Albert Sabin. A vacina de Sabin era uma vacina viva atenuada (usava o vírus numa forma enfraquecida) e podia ser tomada por via oral, em gotas ou num cubo de açúcar. A vacina oral contra a poliomielite foi primeiramente testada e produzida na União Soviética e Europa de leste. A Checoslováquia tornou-se o primeiro país do mundo a eliminar a poliomielite.

história da vacinação contra a pólio

The logo certifying the eradication of smallpox in Somalia, and consequently, in the world. (1979) de World Health Organization (WHO)World Health Organization

Em 1967, a Organização Mundial da Saúde anunciou o programa intensivo de erradicação da varíola, cujo objetivo era erradicar a varíola em mais de 30 países através da vigilância e vacinação. A erradicação é mais do que a eliminação de uma doença numa única área. A OMS define-a como a "redução permanente para zero de um patógeno específico, como resultado de esforços deliberados, sem risco de reintrodução". 

Members of the Global Commission for the Certification of Smallpox Eradication, Geneva, 9 December 1979 (1979) de WHO / L. BiancoWorld Health Organization

Nesta altura, a varíola tinha sido praticamente eliminada na Europa Ocidental, América do Norte e Japão. Após o anúncio, surgiu uma solidariedade global sem precedentes. Apesar da Guerra Fria em curso, os Estados Unidos e a União Soviética uniram-se no apoio ao programa.

Hep B Needles with Dr John MathesonNorth Bondi Surf Life Saving Club

Em 1969, quatro anos depois de ter descoberto o vírus da hepatite B, o Dr. Baruch Blumberg trabalhou com o microbiólogo Irving Millman para desenvolver a primeira vacina contra a hepatite B, usando uma forma do vírus tratada termicamente.


Foi aprovada uma vacina inativada derivada de plasma para uso comercial entre 1981 e 1990. Em 1986, foi desenvolvida uma vacina geneticamente manipulada (ou de ADN recombinante), a qual continua a ser usada nos dias de hoje.

Poster, 'Watery eyes, runny nose, dry cough? It may be measles. Let your doctor know early' de The Health Education CouncilWorld Health Organization

Em 1971, a vacina contra o sarampo (1963) é combinada com vacinas recentemente desenvolvidas contra caxumba (1967) e rubéola (1969) em uma única vacinação (MMR) pelo Dr. Maurice Hilleman. 

história da vacinação contra o sarampo

Em 1974, a OMS estabeleceu o programa ampliado de imunização (PAI, atualmente o programa essencial de imunização) para desenvolver programas de imunização em todo o mundo. As primeiras doenças visadas pelo PAI foram a difteria, o sarampo, a poliomielite, o tétano, a tuberculose e a tosse convulsa.

Treatment Of Pneumonia, Harlem Pneumonia Research, Lederle Labs (1938-02) de Hansel MiethLIFE Photo Collection

Em 1978, foi licenciada uma vacina polissacarídica que protegia contra 14 estirpes diferentes de pneumonia pneumocócica, a qual foi expandida para proteger contra 23 estirpes em 1983.

"Smallpox is dead!", front cover of the magazine of the World Health Organization, "World Health" (May 1980) (1980) de Peter Davies / WHOWorld Health Organization

Em 1980, a Assembleia Mundial da Saúde, por recomendação da Comissão Mundial da OMS para a certificação da erradicação da varíola, declarou a varíola erradicada

"O mundo e toda a sua população tinham-se libertado da varíola, aquela que foi a doença mais devastadora sob a forma de epidemia em vários países desde o início dos tempos, deixando um rasto de morte, cegueira e desfiguração."

Pertussis laboratory work,World Health Organization

Entre 1970 e 1980, nos EUA, os casos de tosse convulsa atingiram mínimos históricos em 1976. No entanto, o sucesso da vacina contra a tosse convulsa foi condicionado por uma diminuição na administração: com tão poucos casos de tosse convulsa, os receios em relação aos efeitos secundários raros, mas graves, da vacina de células inteiras começaram a superar os receios quanto à própria doença.

De Yale JoelLIFE Photo Collection

Em 1985, foi licenciada a primeira vacina contra doenças causadas pelo Haemophilus influenzae tipo b (Hib), depois de David H Smith encontrar uma empresa para a produzir. Smith e Porter W Anderson Jr trabalhavam juntos na área da vacinação desde 1968.

Polio vaccination de WHO / Tuuli HongistoWorld Health Organization

Em 1988, após a erradicação da varíola, a OMS passou a focar-se na poliomielite ao lançar a iniciativa global de erradicação da poliomielite. No final da década de 1980, a poliomielite era endémica em 125 países, e a iniciativa visava alcançar a sua erradicação até ao ano 2000. 

Em 1994, a poliomielite tinha sido erradicada no continente americano, seguindo-se a Europa em 2002. Em 2003, a doença era endémica em apenas 6 países. O esforço continua.

HPV Prevention Poster (2018-02-27) de Cancer.govFonte original: National Cancer Institute

Em 1995, Anne Szarewski liderou uma equipa que viria a destacar o papel do vírus do papiloma humano (VPH) na deteção e no rastreio do cancro do colo do útero, e os investigadores começaram a trabalhar numa vacina contra o VPH. 

Os vírus do VPH são muito frequentes, normalmente com sintomas mínimos, mas as estirpes de alto risco podem progredir e causar outras condições médicas, nomeadamente cancro do colo do útero. Szarewski viria a ser a principal investigadora no desenvolvimento da vacina bivalente contra o VPH.

Mohammad Naveed, an EPI (Expanded Programme on Immunization) worker de Asad ZaidiWorld Health Organization

Em 1999, a primeira vacina contra o rotavírus, a causa mais comum de doença diarreica grave em crianças pequenas, foi retirada apenas um ano depois de ter sido aprovada, devido a preocupações com o risco de problemas intestinais. Uma versão de menor risco da vacina é introduzida em 2006. Leva até 2019 para que ela esteja em uso em mais de 100 países.

Nigeria; cervical cancer prevention and treatment de Blink Media - Etinosa YvonneWorld Health Organization

Em 2006 é aprovada a primeira vacina para o Papilomavírus Humano (HPV). A vacinação contra o HPV passa a se tornar uma parte fundamental do esforço para eliminar o câncer do colo do útero.

A health worker in Sudan (1989) de WHO / TDR / Peter FuruWorld Health Organization

Em 2016, o sucesso do projeto de vacinação contra a meningite destacou a importância do papel das parcerias público-privadas no desenvolvimento de vacinas. Nos primeiros 5 anos de uso, a vacina praticamente eliminou a doença meningocócica do serogrupo A nos países da cintura africana da meningite e está agora a ser integrada nos programas nacionais de imunização de rotina.

Research scientist in Argentina (2002) de WHO / TDRWorld Health Organization

A Assembleia Mundial da Saúde anunciou o R&D Blueprint, um plano global de preparação e estratégia que permite a rápida ativação de atividades de investigação e desenvolvimento durante epidemias. O objetivo é acelerar a disponibilidade de testes, vacinas e medicamentos eficazes que podem ser usados para salvar vidas e evitar crises em larga escala.

From warehouse to remote indigenous communities; The journey of vaccines in Brazil, de Ary Rogerio SilvaWorld Health Organization

Após anos de aceleração da vacinação, a região americana foi declarada livre do sarampo endémico. Os surtos em vários países, provocados por lacunas na cobertura da vacinação, levaram a um ressurgimento da doença em 2018. A OMS e a PAHO aumentaram a vigilância e lançaram campanhas de vacinação. 

The new malaria vaccine begins its phased implementation in Ghana de Francis KokorokoWorld Health Organization

Em 2019, foi iniciado o teste-piloto de implementação da vacina contra a malária no Gana, Maláui e Quénia. A vacina RTS/S é a primeira vacina que pode reduzir significativamente a estirpe mais mortal e dominante da malária em crianças pequenas, o grupo com maior risco de morrer da doença. 

Community representatives come to visit a family in the outskirts of Beni to raise awareness about Ebola de World Bank Group / V. TremeauWorld Health Organization

A OMS pré-qualificou uma vacina contra o ébola para uso em países com risco elevado, no âmbito de um conjunto mais vasto de ferramentas em resposta à doença. Em 2021, foi criada uma reserva global de vacinas para assegurar a resposta a surtos. 

Foi aprovada uma vacina contra a varíola de terceira geração para a prevenção da varíola dos macacos, a primeira contra esta doença.

Representação visual do vírus Sars CoV-2 (2021-02-26/2021-02-26) de Guilherme LeporaceMuseu do Amanhã

A 30 de janeiro de 2020, o Diretor-Geral da OMS declarou o surto do novo coronavírus 2019 (SARS-CoV-2) uma emergência de saúde pública de âmbito internacional. A 11 de março, a OMS confirmou que a COVID-19 era uma pandemia. 

Foram desenvolvidas, produzidas e distribuídas vacinas eficazes contra a COVID-19 com uma rapidez sem precedentes, algumas delas usando tecnologia mRNA inovadora. Em dezembro de 2020, apenas 1 ano após o primeiro caso de COVID-19 ter sido detetado, foram administradas as primeiras doses da vacina contra a COVID-19.

A health worker prepares to administer COVID-19 vaccine (2021) de WHO / Booming - Carlos CesarWorld Health Organization

Em 2021, a implementação das vacinas contra a COVID-19 continuou, com as doses a serem disponibilizadas e administradas em todos os continentes. No entanto, as desigualdades na cobertura da vacinação ameaçavam os esforços para travar a pandemia: em julho de 2021, quase 85% das vacinas tinham sido administradas em países de rendimento elevado e médio-alto, e mais de 75% tinham sido administradas em apenas 10 países. 

WHO Immunization Specialist José Chivale prepares COVID-19 vaccine for administration (2021) de WHO / Booming - Carlos CesarWorld Health Organization

A OMS deu indicações aos estados-membros para darem prioridade à vacinação de profissionais de saúde e grupos de risco em países de rendimento mais baixo, de modo a travar a doença grave e as mortes, manter os profissionais de saúde seguros, e reabrir as sociedades e as economias.

Dr A. Mourad, a WHO epidemiologist checking children to find out if they are vaccinated and vaccinating those who are not (1970) de WHO / Tambarahalli S. SatyanWorld Health Organization

Durante mais de 2 séculos, desde que foi desenvolvida a primeira vacina do mundo contra a varíola, as pessoas têm sido vacinadas contra doenças mortais. A história ensinou-nos que uma resposta global integral e eficaz a doenças preveníveis através de vacinas precisa de tempo, apoio financeiro e colaboração, bem como vigilância contínua. 

Antigen ELISA diagnostic kit for African trypanosomiasis (1991) de WHO / TDR / Wendy StoneWorld Health Organization

Desde práticas inovadoras no século XVI às novas tecnologias usadas nas vacinas contra a COVID-19, percorremos um longo caminho. Atualmente, as vacinas ajudam a proteger contra mais de 20 doenças, como a pneumonia, o cancro do colo do útero e o ébola. Só nos últimos 30 anos, a mortalidade infantil diminuiu mais de 50%, em grande parte graças às vacinas. Contudo, ainda há muito a fazer.

A thank you card hangs on a wall in the Philippine General Hospital in Manila (2021) de WHO / Blink Media - Hannah Reyes MoralesWorld Health Organization

Em muitas regiões do mundo, 1 em cada 5 crianças continua sem ser vacinada. Nas próximas décadas, serão necessários cooperação, financiamento, compromisso e visão globais para garantir que nenhuma criança ou adulto sofre ou morre de uma doença prevenível através de vacinas. 

Explore mais em g.co/historyofvaccination.

Créditos: todos os meios
Em alguns casos, é possível que a história em destaque tenha sido criada por terceiros independentes, podendo nem sempre refletir as visões das instituições, listadas abaixo, que forneceram o conteúdo.
Explore mais
Tema relacionado
A Brief History of Vaccination
A Brief History of Vaccination
Ver tema

Tem interesse em Viagens?

Receba atualizações com a sua Culture Weekly personalizada

Está tudo pronto!

O seu primeiro canal Culture Weekly chega esta semana.

Página Inicial
Descobrir
Reproduzir
Próximo
Favoritos