Conta o mito que, andando à caça num dia de nevoeiro, D. Fuas é retido por milagre de Nossa Senhora da Nazaré junto ao precipício de onde um veado se lança. Na pintura, o artista subverte as convenções culturais em torno do respetivo mito, não fazendo figurar nele nada para além deste veado que, já em queda, deixa atrás de si um plano de fundo nebuloso, e à sua frente o espectador. Deste modo, o pintor acentua o lado enigmático da história, ocultando a figura principal – Dom Fuas – e dando protagonismo à figura que corporiza o diabo. Reza a lenda que o animal seduziu de tal modo o caçador que só poderia estar possuído pelo demónio.
Descolando-se da representação tradicional, Pomar dá lugar a uma pintura que vale sobretudo pela sua frescura plástica e temática. A representação de enigmas figurativos é uma constante nas obras de Júlio Pomar. As suas pinturas operam sobre protocolos relativos à perceção e representação, apresentando um real particular, por vezes ficcionado, fragmentado, ou mesmo, deformado – sendo talvez estas dimensões menos comuns que podem fornecer novos entendimentos das lendas e, assim, resgatá-las da sua caducidade histórica.
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