Em «Fernando Pessoa e Alfredo Marceneiro», Júlio Pomar reúne duas figuras icónicas da cultura portuguesa a partir de imagens fotográficas amplamente reproduzidas. Fernando Pessoa surge de frente, reconhecível pelos óculos, bigode e chapéu, enquanto Alfredo Marceneiro aparece de perfil, numa posição invertida em relação à fotografia que serviu de modelo. Sobre a base em acrílico, Pomar acrescenta intervenções a pastel: traços brancos, riscos negros e marcas quase distraídas, como um graffiti que atravessa e perturba a imagem, sobretudo no rosto de Pessoa.
Esta obra integra uma fase madura do trabalho de Pomar, em que cores vibrantes, gestos livres e sobreposições convivem com grande naturalidade. As manchas de cor animam os rostos e conferem-lhes movimento e vitalidade. A justaposição artificial das duas figuras, com escalas e posições desfasadas, introduz um humor subtil que evoca a cultura pop. Ao aproximar Pessoa e Marceneiro, Pomar coloca em diálogo o mito da poesia erudita e o mito do fado popular, refletindo ironicamente sobre a construção e o consumo da identidade cultural portuguesa.
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