O interesse de Pomar por espetáculos e competições equestres remonta às touradas de Domingo, no Campo Pequeno, em Lisboa, nos finais dos anos 1950 e prolonga-se nos inícios de 1960, após instalar-se em Paris num bairro onde se localizam os hipódromos de Auteuil e de Longchamp.
Em «Estudo Sobre Fundo Vermelho [corridas]», de 1964, numa atmosfera monocromática rosada eclode um turbilhão latitudinal de borrões de um vermelho fechado, quase negro, «um movimento de trajetória única» (JP), avivado por um fogacho alaranjado e, em cima, a complementaridade de um azul-claro. O contraste das marcas arrastadas, escuras, na nebulosidade cromática do fundo corrobora a importância das temporalidades na execução das manchas enquanto sentido. Estas pinturas, de franco gestualismo, marcam uma viragem na obra de Júlio Pomar. Apesar da temática não se afastar do quotidiano social e da experiência vivida do pintor – «o assunto não é o conteúdo», afirmou Pomar –, nestas pinturas é a própria pintura que se faz conteúdo dela mesma. Pomar investe no poder visual da forma em movimento, isto é, no modo como a mancha de cor, pela forma como é aplicada, se torna significante da força e da velocidade.
Se, por um lado, o conjunto de obras executadas entre 1964 e 1965 foi um êxito comercial, por outro, trata-se de um núcleo que se encerra rapidamente, pelo vórtice que se gerou na sua produção; talvez devido a um sentimento de que ela estaria a inclinar-se para explosões pitorescas de cor, para uma pintura temperamental e desligada da experiência do mundo, de que o autor jamais prescindiu.
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