Nosso Sagrado

A construção de uma herança fraterna

Exu Ijelú (escultor: Arthur Cunha) - Exu, Legbara e Nzila são os mensageiros entre os humanos e o divino, respectivamente das nações Ketu, Jeje e Angola. Força Vital que dinamiza o movimento, o caminho e a comunicação.Museu da República

O Nosso Sagrado chegou ao Museu da República em 21 de setembro de 2020, na Primavera dos Museus. A coleção reúne 519 peças de religiosidades afro-brasileiras confiscadas pela policia em casas de santo da cidade do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do Brasil republicano.

Trio de atabaques (Lé, Rumpi e Rum, respectivamente o atabaque menor, médio e maior). Os atabaques dominam o dialeto das divindades. Nas cerimônias, chamam para a roda, o canto, a dança. Repercutem sentimentos, contam histórias e convocam para a luta. São símbolos de afirmação étnica.Museu da República

Mães e pais de santo eram acusados de curandeiros, charlatões e outras tipificações previstas no então Código Penal de 1890. Seus objetos rituais, apreendidos como “provas de crime”, passaram a integrar, em 1945, o que hoje é o Museu da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro.

Adê de Oxum - "Adê" é uma palavra do idioma iorubá que significa "coroa".Museu da República

Associar objetos de religiões afro-brasileiras ao crime é conduta que encontra viva expressão no pensamento científico eurocêntrico que ganhou força no Brasil no século XIX e início do XX, supondo a inferioridade dos povos não-brancos e de suas práticas culturais.

Cocar de penas - Usado por Caboclos, entidades espirituais de grande relevância na umbanda e no candomblé.Museu da República

Em 1938, o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, atual Iphan, determinou o tombamento das peças sagradas apreendidas pela polícia do Rio, que então reuniam cerca de 200 itens. Foi o primeiro tombamento etnográfico do país.

Fio de contas - Colar usado por iniciados em religiões de matrizes africanas, com força de proteção.Museu da República

Os objetos sagrados foram batizados de Coleção Museu da Magia Negra, evidenciando o preconceito e aspectos sutis da construção de um imaginário social depreciativo da cultura afro-brasileira.

Abebé de Oxum - Objeto com força espiritual para afastar energias negativas. No candomblé, espelho sagrado em que Oxum admira a própria beleza.Museu da República

O povo do Axé muito lutou pela libertação dos objetos sagrados. “Não houve crime nenhum” – repete com firmeza Mãe Meninazinha de Oxum, autoridade do Candomblé – “o que houve foi desrespeito, ignorância, racismo religioso”.

Cachimbo - No candomblé, os cachimbos representam a divindade da cura. Na umbanda, são muito usados por Pretos Velhos, espíritos associados ao arquétipo do velho sábio.Museu da República

Em 2017, a comunidade de santo mobilizou o apoio de autoridades políticas, artistas e movimentos sociais, sendo lançada a Campanha Liberte Nosso Sagrado. A transferência do acervo para o Museu da República é percebida como fruto dessa luta.

Ferramenta de Ossaim, Agué e Katende, respectivamente a divindade da cura com folhas das nações Ketu, Jeje e Angola.Museu da República

Comitiva liderada por Mãe Meninazinha propôs, em fins de 2018, que os objetos sagrados fossem transferidos para o Museu da República. Única condição, comum às partes: que se constituísse um grupo com lideranças de santo e técnicos do Museu para a gestão compartilhada do acervo.

Opá, representando Yamase, mãe de Xangô, para assentamento do Orixá.Museu da República

Uma das primeiras medidas do Grupo de Trabalho de santo, foi renomear o acervo para Coleção Nosso Sagrado. O compromisso é apresentar os objetos como instrumento de afirmação do direito à liberdade religiosa, à vida, à cultura, à memória.

Iemanjá, no sincretismo da sereiaMuseu da República

A transferência do acervo sagrado para o Museu da República é um passo preciso na direção de projetos que lancem luz sobre esse patrimônio cultural, garantindo a sua documentação, preservação, comunicação e acesso democrático.

Créditos: história

Museu da República /IBRAM/SECULT
Direção - Mario Chagas
Coordenação Técnica - Daniela Matera do M. Lins
Setor de Comunicação - Henrique Milen


Exposição
Criação e montagem - Paulo Celso Corrêa
Pesquisa histórica - Maria Helena Versiani e Eduardo Possidônio
Textos - Maria Helena Versiani
Tratamento e processamento de acervo - André A. Angulo (coord.), Paloma Bensabat, Adriana Barreira, Emanuelle Rosa Ferraz e Maria Gabriela Glória de Moura (estagiária)
Fotografia - Oscar Liberal


Consultoria Religiosa / Gestão Compartilhada - Mãe Meninazinha de Oxum, Pai Roberto Braga (Tata Luazemi), Mãe Nilce de Iansã, Pai Mauro de Oxossi, Pai Adailton de Ogum, Mãe Marcinha de Oxum, Marcos Aurélio (Casa de Mãe Palmira), Tata Songhele, Mãe Flávia Pinto, Pai Ricardo e Pai Thiago


Parceria e Apoio - Instituto Ibirapitanga e Quiprocó Filmes

Créditos: todas as mídias
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