A arte cerâmica das mulheres Baniwa

By Museu do Índio

Upper rio Negro landscape (2012) by Thiago da Costa OliveiraMuseu do Índio

A região do alto rio Negro, fronteira entre o Brasil, a Colômbia e a Venezuela só é acessível por via fluvial e aérea. Ali vivem 23 etnias indígenas, dentre as quais os Baniwa. Eles são cerca de 6000 indivíduos no Brasil, 2.500 na Venezuela e 7.000 na Colômbia. Para acessar suas aldeias a partir de São Gabriel da Cachoeira, último município brasileiro desta região amazônica (AM), viaja-se por centenas de quilômetros pelos rios Negro, Içana e Aiari.

Auxiliary objects employed in the pottery production (2014) by Thiago da Costa OliveiraMuseu do Índio

Cestos de carga, facas, pedras de polir, tábuas, cuias, bacias e abanos trançados estão entre os materiais e ferramentas utilizados na produção da cerâmica feita pelas mulheres baniwa.

Carolina mixing the ceramics mass (2014) by Thiago da Costa OliveiraMuseu do Índio

A massa cerâmica é feita de barro selecionado misturado às cinzas da casca de uma árvore chamada caraípe (da família das Chrysobalanaceas).

Roller of ceramic mass made on an old piece of arumã cane basket (2014) by Thiago da Costa OliveiraMuseu do Índio

Dorinha molding a ceramic pot (2014) by Thiago da Costa OliveiraMuseu do Índio

O pote é modelado por meio de uma técnica chamada "acordelado".

Laura, Kubeu potter, building up a ceramic pot (2012) by Thiago da Costa OliveiraMuseu do Índio

Os rolos de massa são adicionados um a um, até atingir o formato e a dimensão desejados pela ceramista.

Nazaria underpins her ceramic pot (2014) by Thiago da Costa OliveiraMuseu do Índio

Durante a secagem da peça, algumas escoras podem ser usadas para sustentar os potes.

A potter opens up the newly modeled pot with a piece of gourd (2014) by Thiago da Costa OliveiraMuseu do Índio

Após a modelagem inicial, a ceramista define a forma dos potes com o auxílio de um pedaço de cuia, abrindo e estreitando as suas paredes. O resultado será uma peça mais leve e delicada.

A potter polishes a ceramic piece (2014) by Thiago da Costa OliveiraMuseu do Índio

Após a raspagem, quando a peça atinge o "ponto de osso", inicia-se o polimento. Ele trará brilho e ainda mais leveza aos potes.

The doowhe stone, used to polish the ceramic pots and to make them shine (2012) by Thiago da Costa OliveiraMuseu do Índio

Pedras importadas da região do Apaporis, macro-bacia do rio Japurá, são utilizadas no polimento.

Cutting eewa pigment, employed in the painting of baniwa pottery (2014) by Thiago da Costa OliveiraMuseu do Índio

O pigmento eewa, empregado na pintura dos potes de cerâmica, é encontrado somente em raros depósitos localizados no leito dos rios, acessíveis somente em determinados períodos do ano, quando as águas baixam.

The heating process, before the burning of the pots (2014) by Thiago da Costa OliveiraMuseu do Índio

A queima ocorre após a pintura, geralmente nas roças próximas às aldeias. É uma etapa delicada. Não pode chover e as peças não podem ser aquecidas muito rapidamente.

Ceramic pots in a metal basin, after the burning of the pots (2014) by Thiago da Costa OliveiraMuseu do Índio

Após a queima, como num passe de mágica, as peças se transformam completamente: antes de cor cinza, com padrões pintados em amarelo, tornam-se claras, com padrões vermelho-alaranjados. A mudança de cor do pigmento é um resultantes da oxidação dos minerais ferrosos presentes em sua composição .

Varnishing the pots (2014) by Thiago da Costa OliveiraMuseu do Índio

O envernizamento é a última etapa do acabamento das peças decoradas com grafismos.

Oomaphitako, a vegetable varnish used for finishing of the ceramic pots (2014) by Thiago da Costa OliveiraMuseu do Índio

Ele é feito com resina vegetal de um arbusto chamado oomapihitako em baniwa. Pode também ser feito da seiva do jutaí, árvore da família do jatobá (Fabáceas).

Smoked finishing (2012) by Thiago da Costa OliveiraMuseu do Índio

Os potes destinados a ir ao fogo para o cozimento de alimentos são impermeabilizados por meio de uma técnica de defumação.

Dona Carolina, her daugther and her granddaughter before the pots produced during the Prodocult workshop held in 2014 (2014) by Thiago da Costa OliveiraMuseu do Índio

A cerâmica é uma arte exclusivamente feminina entre os Baniwa, transmitida de geração a geração, das avós às netas, das mães às filhas.

A group of Baniwa women in search of raw materials (2012) by Thiago da Costa OliveiraMuseu do Índio

Como toda arte, a cerâmica encontra-se ligada a outros campos da cultura indígena: mitos, ritos, técnicas artísticas e corporais, trocas econômicas, matrimoniais e ecológicas.

Young girl leaving puberty seclusion. (2012) by Thiago da Costa OliveiraMuseu do Índio

A forma tradicional de aprendizado ocorre durante a reclusão que segue a primeira menstruação das jovens Baniwa. As panelas feitas neste contexto são utilizados nos rituais de iniciação feminino e masculino praticados ainda em certas aldeias deste povo.

Julio Kubeu, a basket weaver (2012) by Thiago da Costa OliveiraMuseu do Índio

A cerâmica encontra seu par na cestaria – arte dominada com maestria pelos homens Baniwa. Ambas são presentes oferecidos  para visitantes, trocados entre famílias aliadas por casamento, ou vendidos, ainda, no comércio local.

A baniwa man shows his manioc grater (2012) by Thiago da Costa OliveiraMuseu do Índio

Os povos indígenas do alto rio Negro são conhecidos por seu rico sistema de cultura material. Alguns dos objetos que produzem, contudo, não são feitos exclusivamente por homens e mulheres, mas em parceria, como é o caso dos raladores de mandioca.

Baniwa and Tukano pottery (1959) by Mulheres Baniwa do rio Aiari e Tukano da bacia do UaupésMuseu do Índio

A “cerâmica branca” produzida pelas mulheres deste grupo é um importante marcador de identidade no sistema interetinico do alto rio Negro.

Os potes claros com grafismos vermelhos se contrapõe à cerâmica com acabamento escuro, acompanhada de “pintura em negativo”, característica da produção das mulheres Tukano que habitam o rio Uaupés - outro dos formadores do rio Negro.

Embora distintas no acabamento as duas tradições cerâmicas são encontradas em formatos – panelas, tigelas, taças e bilhas – semelhantes.

Final evaluation of the 2014 pottery workshop (2014) by Thiago da Costa OliveiraMuseu do Índio

A cerâmica caiu em desuso ao longo da segunda metade do século XX, afetada pela introdução de objetos industrializados e pela desestruturação da vida cerimonial baniwa - resultado da conversão ao evangelismo pentecostal de cerca de 80% desta população, ocorrida nos anos 1950.

Diante deste cenário, com o objetivo de documentar o conhecimento disperso entre algumas mulheres Baniwa e estimular o surgimento de uma nova geração de ceramistas, o Prodocult Museu do Índio- FUNA/UNESCO realizou, entre 2014 e 2015, um projeto de documentação e salvaguarda da cerâmica deste povo.

O projeto foi feito em parceria com as comunidades de Ucuqui-Cachoeira e São Joaquim do rio Aiari.

Set of Baniwa ceremonial pottery (2014) (2014) by Mulheres Baniwa do rio AiariMuseu do Índio

Ao lado da formação de novas ceramistas, outro resultado importante deste projeto foi a produção de uma nova coleção de cerâmica baniwa, adquirida pelo Museu do Índio em 2014. Estas peças vieram a se somar ao acervo do Museu, que já contava com potes baniwa coletados por importantes colecionadores e pesquisadores, como Gastão Cruls e Eduardo Galvão, nos anos 1950 e 1960.

Baniwa potter (2014) by Thiago da Costa OliveiraMuseu do Índio

A salvaguarda da cultura material baniwa é uma das prioridades do Museu do Índio. Para conhecer mais sobre a cultura material deste povo, visite em museudoindio.gov.br a base de dados do acervo Museu do Índio.

Credits: Story

CURADORIA, FOTOGRAFIA, VÍDEOS E TEXTOS
Thiago da Costa Oliveira

PRODOCULT BANIWA/HOHODENI

Projeto de documentação da cultura material e imaterial entre os Baniwa do alto rio Negro: formação de acervo e capacitação de indígenas.

COORDENADOR DE PESQUISA
Thiago da Costa Oliveira
(Pós-doc PNPD/CAPES - PPGAS/MN/UFRJ)

COORDENAÇÃO CIENTÍFICA
prof. Dr. Carlos Fausto
(Prof. Titular PPGAS/MN/UFRJ)

PESQUISADORES INDÍGENAS
Nazária Montenegro, Orlando Fontes, Ilda da Silva Cardoso e Jocimara Cardoso Fontes, todos hohodeni de Ucuqui-Cachoeira

CERAMISTAS BANIWA
Carolina Campos e Maiara Campos de Andrade, Dorinha Andrade Campos, Nazária Andrade, Maria Brazão, Maria de Lima, Ana Brazão, Laura Brazão, Docilene Brazão, Lucia Brazão, Adalta Rodrigues, Ana Souza da Silva e Cristina Rodrigues

GESTÃO CIENTÍFICA DO PRODOCULT
Chang Whan

PROJETO GOOGLE ARTS&CULTURE
Elena Guimarães (Serviço de Atividades Culturais)
Ione H. P. Couto (Coordenação de Patrimônio Cultural)
Thaís Tavares, Luiza Zelesco (Serviço de Referências Documentais)

MUSEU DO ÍNDIO/FUNAI

COORDENAÇÃO DE ADMINISTRAÇÃO
Rosilene de Andrade Silva

COORDENAÇÃO DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA
Carlos Augusto da Rocha Freire

COORDENAÇÃO DE PATRIMÔNIO CULTURAL
Ione Helena Pereira Couto

COORDENAÇÃO TÉCNICO CIENTÍFICA
Sonia Maria Otero Coqueiro

COMUNICAÇÃO SOCIAL
Cristina Botelho
Rosângela Abrahão

SERVIÇO DE GABINETE
Arilza Almeida

DIRETOR DO MUSEU DO ÍNDIO
José Carlos Levinho

PRESIDENT DA FUNAI
Franklimberg Ribeiro de Freitas

MINISTRO DA JUSTIÇA
Torquato Lorena Jardim

PRESIDENTE DO BRASIL
Michel Temer

Credits: All media
The story featured may in some cases have been created by an independent third party and may not always represent the views of the institutions, listed below, who have supplied the content.
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