3. O racismo científico na história
No século XIX, estudos de natureza científica foram usados para justificar a exploração das populações nativas da América e da África. Estudiosos tentavam determinar níveis de desenvolvimento intelectual e cultural em “raças” distintas a partir de medições do crânio e do corpo. Tal serviu como fundamento para a desumanização das populações nativas e negras no Brasil, que ocorreu durante o período colonial. Estas obras mostram, entretanto, que houve sempre resistência e luta contra este processo.
Paraíso Tropical (2017) de Rosana PaulinoFaculdade de Letras da Universidade do Porto
A fotografia apropriada pela artista é um exemplo da construção da imagem das pessoas escravizadas no Brasil. O rosto vazio representa a exclusão e esquecimento sentidos na contemporaneidade, relacionados com a inserção de pessoas negras, principalmente mulheres, na história.
Paulino utiliza imagens de crânios nos seus trabalhos, remetendo aos estudos “científicos” do século XIX - como a frenologia e a craniometria - que procuravam justificar a escravidão e o racismo.
A geometria à brasileira chega ao paraíso tropical (2017/2018) de Rosana PaulinoFaculdade de Letras da Universidade do Porto
A artista questiona a ideia de uma vocação brasileira para a geometria, perguntando quem teria essa vocação, se os povos ameríndios, a população negra, ou se seria uma geometria importada da cultura europeia, graças à colonização.
Paulino demonstra com este trabalho os recortes que são feitos, não só na história da arte brasileira, mas na história do próprio Brasil, pensando em quem autoriza e promove estes recortes, e quem beneficia com estes.
Amnésia (2015) de Flávio CerqueiraFaculdade de Letras da Universidade do Porto
Amnésia critica o tema da miscigenação e embranquecimento da população brasileira no século XIX, promovida por cientistas que buscavam a “purificação” da população. O título referencia a lenda em que pessoas escravizadas davam voltas ao redor da árvore do Esquecimento, o Baobá.
Big Polvo Color Wheel V (2018) de Adriana VarejãoFaculdade de Letras da Universidade do Porto
Adriana Varejão criou uma série de obras que exploram o conceito de miscigenação e raça no Brasil. Polvo aborda o conceito flutuante da identidade inter-racial brasileira, que, historicamente, assumiu funções sociais e culturais.
O título, Polvo, se refere ao animal que utiliza tinta composta de melanina para se defender. Esse mesmo composto confere pigmentação à pele e cabelos de seres humanos. A palavra polvo, no português, é similar a “povo”, um conjunto de habitantes de uma nação ou localidade.
4. A exploração da população nativa
A colonização afetou de forma devastadora as populações nativas. A violência, a doença, a destruição do território e das culturas são parte do movimento que teve início com a expansão marítima portuguesa. A religião teve um papel fulcral neste processo. As obras selecionadas discutem a exploração e o abuso decorrente do colonialismo e da evangelização, questionando a construção histórica e o apagamento cultural que advém da colonização, cujas marcas ainda perduram até hoje.
Missão/Missões (Como construir catedrais) (1987) de Cildo MeirelesFaculdade de Letras da Universidade do Porto
Esta obra de Cildo Meireles faz uma referência às Missões Jesuíticas na América do Sul, as quais tinham o objetivo de evangelização e catequização de populações indígenas locais e se desenvolveram durante o século XVII e XVIII.
Os ossos e as hóstias servem como alegorias à exploração que ocorreu nas Missões, conectando as referências ao poder material, religioso e à violência gerada nesta relação.
Tinha que acontecer (Cabeça de Bandeirante) (2016) de Flávio CerqueiraFaculdade de Letras da Universidade do Porto
Flávio Cerqueira procura dar um fim à figura do Bandeirante como herói, apresentando sua cabeça de tamanho monumental, tombada no chão em espaço público, questionando a presença de diversos monumentos que exaltam esta figura histórica na cidade de São Paulo.
O título da obra, “Tinha que acontecer”, sugere que eram necessárias consequências face às ações violentas dessa controversa figura durante a história de construção do país.
Olvido (1987/1989) de Cildo MeirelesFaculdade de Letras da Universidade do Porto
Os elementos da obra carregam em si referências claras à religião, à morte, ao capitalismo, à exploração, à violência, ao desmatamento e ao apagamento da cultura indígena no Brasil.
Além disso, o título da obra se refere à palavra portuguesa “olvido”,hoje caída em desuso, e que significa esquecimento. O artista chama atenção para questões que, mesmo com movimentos de preservação da cultura indígena, ainda afetam essa parcela da população.
CURADORIA: Maria Paula Magalhães Silva sob a orientação de Maria Leonor Barbosa Soares, Joana Isabel Fernandes Duarte e Diana Felícia.
TEXTOS: Maria Paula Magalhães Silva com revisão científica de Maria Leonor Barbosa Soares, Joana Isabel Fernandes Duarte e Inês de Carvalho Costa.
PRODUÇÃO: Este trabalho resulta de um projeto de Maria Paula Magalhães Silva para o mestrado em História da Arte, Património e Cultura Visual (MHAPCV) da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, desenvolvido no CITCEM/FLUP durante 2020/2021 e aprovado pela Comissão Científica em exercício de funções do MHAPCV.
RELATÓRIO DO PROJETO: https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/139724
APOIOS: CITCEM/FLUP.
TRADUÇÃO: Maria Paula Magalhães Silva.
REVISÃO DE TRADUÇÃO: Raquel Viúla («Financiada pela FCT - Fundação Nacional para a Ciência e Tecnologia, no âmbito do projeto UIDB/04059/2020»).
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