Iberê Camargo: um corpo fotográfico

Imagens de Cristine de Bem e Canto

Do Fundação Iberê

Esta apresentação integra o projeto contemplado pelo XVI Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia, com o apoio da Fundação Iberê.

Corpos em movimento

Texto de Virgínia Gil Araujo

“Não tenho convicções políticas. O homem não encontrou solução para essas coisas porque é egoísta. Somente os bichos e as aves é que sabem das coisas.” (Depoimento de Iberê Camargo para Paulo Reis)

Iberê Camargo em ensaio fotográfico, Cristine de Bem e Canto, 1992, Da coleção de: Fundação Iberê
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Iberê Camargo pintando e Cristine de Bem e Canto fotografando. Dois corpos juntos em plena atividade, animados e sensibilizados pela possibilidade da invenção. Cristine guardou durante 30 anos mais de 400 negativos das sessões fotográficas realizadas no ateliê de Iberê e agora disponibiliza fragmentos dessa experiência inédita, no seu projeto contemplado pelo XVI Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia, com o apoio da Fundação Iberê.

Iberê Camargo em ensaio fotográfico (1992), de Cristine de Bem e CantoFundação Iberê

Em uma visita com a professora Mariza Carpes, do Instituto de Artes da UFRGS, ao ateliê de Iberê, a fotógrafa deixou um bilhete nas mãos do artista manifestando a vontade de fotografá-lo pintando. Após alguns dias Iberê telefonou para combinarem esse trabalho em parceria. Durante a primeira sessão podemos perceber as fotografias como imagens-sequência, em que a fotógrafa persegue a ação do artista de modo quase cinematográfico.

Essa obsessão pelo movimento é relatada por Cristine: “Passados 30 anos o que mais tenho presente é a vivência de ser afetada pelo movimento daquele corpo que atingiu, diretamente, minha força e minha alma”.

Iberê produzindo um dos guaches "Andando contra o vento" (1993), de Cristine de Bem e CantoFundação Iberê

Iberê produzindo um dos guaches "Andando contra o vento", Cristine de Bem e Canto, 1993, Da coleção de: Fundação Iberê
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A vivência desse ato fotográfico gerou espaços em que os dois corpos atuaram como partituras abertas à interação, ampliando o entendimento do espaço enquanto propositor de sincronia entre os corpos, deflagrando as questões cinestésicas. Essas fotografias concebem um modo de comunicar e pensar sobre as ações simultâneas dos corpos, quando duas linguagens aparentemente distintas inserem insolitamente a condicionante do tempo no fazer.

Iberê produzindo um dos guaches "Andando contra o vento", com modelo ao fundo, Cristine de Bem e Canto, 1993, Da coleção de: Fundação Iberê
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Iberê produzindo um dos guaches "Andando contra o vento", Cristine de Bem e Canto, 1993, Da coleção de: Fundação Iberê
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Ao adotar o princípio da cinestesia e compreender o movimento transformado pela tecnologia, a fotografia torna o corpo em velocidade uma nova categoria de percepção do espaço; podemos perceber que a fotógrafa parece ter direcionado esforços de modo mais consciente para experimentações com o seu próprio corpo naquelas imagens, que nos dizem a respeito das direções corporais (frente, costas, esquerda, direita, cima, baixo, etc.), ...

Iberê e Maria observando guaches "Andando contra o vento", Cristine de Bem e Canto, 1993, Da coleção de: Fundação Iberê
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... ou melhor, para onde ela tem a intenção de ir; e de todos os planos de trabalho do corpo do artista (baixo, médio, alto, horizontal, vertical, diagonal, etc.), quer dizer, por onde ele tinha a intenção de se movimentar. A vivência desfrutada pelo encontro dos dois artistas resulta em experiência quase cinematográfica, atenta às movimentações dos sujeitos, bem como atenta para as investigações sobre as teorias de participação e processos colaborativos.

Iberê produzindo um dos guaches "Andando contra o vento", com Maria Coussirat Camargo e modelo ao fundo, Cristine de Bem e Canto, 1993, Da coleção de: Fundação Iberê
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Iberê produzindo um dos guaches "Andando contra o vento", com Maria Coussirat Camargo e modelo ao fundo, Cristine de Bem e Canto, 1993, Da coleção de: Fundação Iberê
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Iberê produzindo um dos guaches "Andando contra o vento", com modelo ao fundo (1993), de Cristine de Bem e CantoFundação Iberê

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Iberê produzindo um dos guaches "Andando contra o vento" e Maria Coussirat Camargo (1993), de Cristine de Bem e CantoFundação Iberê

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Materiais de desenho de Iberê, ateliê da rua Alcebíades Antonio dos Santos, Cristine de Bem e Canto, 1993, Da coleção de: Fundação Iberê
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Tais alterações no modo de encararmos a arte e a vida desafiam o fazer pictórico e a arte que envolve as questões do meio no qual se está inserido, como as artes que trabalham com as condicionantes corpo-espaço-temporais.

A emergência da fotografia como arte contemporânea e performática, na qual o público sai da postura de espectador para aquela outra de participante ativo, é sugerida quando a instantaneidade da fotografia e da pintura se misturam a ponto de entrever o gesto vulcânico de Iberê Camargo.

Iberê produzindo guache da série "O homem da flor na boca - Um ato de amor à vida" (1992), de Cristine de Bem e CantoFundação Iberê

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Iberê produzindo guache da série "O homem da flor na boca - Um ato de amor à vida", Cristine de Bem e Canto, 1992, Da coleção de: Fundação Iberê
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Iberê produzindo guache da série "O homem da flor na boca - Um ato de amor à vida", Cristine de Bem e Canto, 1992, Da coleção de: Fundação Iberê
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Iberê produzindo guache da série "O homem da flor na boca - Um ato de amor à vida" (1992), de Cristine de Bem e CantoFundação Iberê

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Encontro na entrevista concedida a Paulo Reis um vislumbre sobre a instantaneidade da pintura de Iberê em suas próprias palavras: Eu pinto, escrevo, gravo, faço tudo com o mesmo amor porque vou fundo na minha verdade. Na gravura você depende de outros fatores, a pintura é mais direta. Ela é mais imediata”. As fotografias de Cristine são demasiadamente espontâneas, proporcionando a fruição da intensidade do momento desse processo contínuo.

Todo o agir, nessa experimentação, faz com que os dois se distanciem, em certa medida, do pensamento racionalista e os coloca em um outro lugar de fala, mais próximo das sutilezas e multiplicidades que tornam as artes um complexo campo de materialização das subjetividades dos sujeitos. Em que momento a pintura e a fotografia se fundem indicando o impulso vital do corpo em direção ao espaço?

O corpo aqui é o próprio espaço em que ele se mantém em atividade, é um estímulo ao encontro. O lugar onde existe a chance de recuperar-se a pulsão de vida, a energia inventiva, tão buscada por ambos.

Iberê produzindo guache da série "O homem da flor na boca - Um ato de amor à vida", Cristine de Bem e Canto, 1992, Da coleção de: Fundação Iberê
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Iberê Camargo em ensaio fotográfico, Cristine de Bem e Canto, 1992, Da coleção de: Fundação Iberê
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Iberê produzindo guache da série "O homem da flor na boca - Um ato de amor à vida" (1992), de Cristine de Bem e CantoFundação Iberê

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Iberê preparando suas tintas para guache da série "O homem da flor na boca - Um ato de amor à vida", Cristine de Bem e Canto, 1992, Da coleção de: Fundação Iberê
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Iberê produzindo guache da série "O homem da flor na boca - Um ato de amor à vida", Cristine de Bem e Canto, 1992, Da coleção de: Fundação Iberê
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O processo de captura da força vital dos sujeitos, como descortinou Gilles Deleuze, não deve abdicar do sensível, pois a lógica disciplinatória produz unicamente o esperado e o repetido. Em que medida Iberê está consciente de ser fotografado? Imerso no agir não parece sentir-se apenas observado, mas também participar ativamente e subjetivamente da composição das fotos.

Conseguiu essa façanha abrindo com o seu corpo-espaço o processo de subjetivação. O agir em cumplicidade evita a passividade tátil e o adormecimento da atenção para com as relações entre corpo, espaço e tempo, que afeta diretamente a constituição do espaço comum.

Iberê produzindo guache da série "O homem da flor na boca - Um ato de amor à vida", Cristine de Bem e Canto, 1992, Da coleção de: Fundação Iberê
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Tendo em vista que o corpo-espaço compartilhado se automodifica constantemente, o espaço está sempre se reconfigurando, se deslocando; com isso, o corpo consegue ser impulsionado em meio ao caos da normatividade e apropriar-se dos meios de autoexpressão.

Iberê produzindo guache da série "O homem da flor na boca - Um ato de amor à vida" (1992), de Cristine de Bem e CantoFundação Iberê

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Materiais de pintura de Iberê, ateliê da rua Alcebíades Antonio dos Santos, Cristine de Bem e Canto, c.1993, Da coleção de: Fundação Iberê
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Iberê Camargo produzindo a obra "Tudo te é falso e inútil V", Cristine de Bem e Canto, 1993, Da coleção de: Fundação Iberê
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Cria-se através do corpo ativo um estado de presença capaz de transformar nossa produção de subjetividade e com isso a conectar-se de modo corpóres-espacial – mais coerente com os problemas e projetos de nossa época, inclusive eco-etológicos, praticando o pensamento como sugere Suely Rolnik em sua “plena função ético-estético-clínico-política”. (ROLNIK:2018,192)

Iberê Camargo produzindo a obra "Tudo te é falso e inútil V" (1993), de Cristine de Bem e CantoFundação Iberê

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Iberê Camargo produzindo a obra "Tudo te é falso e inútil V", Cristine de Bem e Canto, 1993, Da coleção de: Fundação Iberê
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Iberê Camargo produzindo a obra "Tudo te é falso e inútil V", Cristine de Bem e Canto, 1993, Da coleção de: Fundação Iberê
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Ao deslocarmos a nossa percepção corporal de um corpo cotidiano para um corpo de experimentação e potencialidades, deslocamos também a nossa percepção espaço-temporal, de um espaço-tempo para um lugar-ocasião.

Iberê Camargo produzindo a obra "Tudo te é falso e inútil V", Cristine de Bem e Canto, 1993, Da coleção de: Fundação Iberê
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Iberê Camargo produzindo a obra "Tudo te é falso e inútil V", Cristine de Bem e Canto, 1993, Da coleção de: Fundação Iberê
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Iberê Camargo produzindo a obra "Tudo te é falso e inútil V", Cristine de Bem e Canto, 1993, Da coleção de: Fundação Iberê
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Considerando a influência da memória corporal, a performance se torna interessante ao estudo do corpo como linguagem, pois amplia a nossa compreensão sobre as movimentações com as quais os corpos dos artistas estão acostumados. Quero dizer, qualquer que seja o significado de espaço e tempo, lugar e ocasião significam mais; porque o espaço, na ideia de Iberê, é lugar; e tempo, na ideia de Cristine, é ocasião.

Iberê Camargo produzindo a obra "Tudo te é falso e inútil V" (1993), de Cristine de Bem e CantoFundação Iberê

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O corpo de Iberê Camargo como lugar resiste no ato de pintar mantendo um modo de vida que permite um outro tipo de subjetivação, potencializa o sujeito e o indivíduo enquanto ser no mundo.

Iberê Camargo produzindo a obra "Tudo te é falso e inútil V" (1993), de Cristine de Bem e CantoFundação Iberê

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Iberê Camargo produzindo a obra "Tudo te é falso e inútil V" (1993), de Cristine de Bem e CantoFundação Iberê

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Iberê Camargo produzindo a obra "Tudo te é falso e inútil V", Cristine de Bem e Canto, 1993, Da coleção de: Fundação Iberê
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Iberê Camargo produzindo a obra "Tudo te é falso e inútil V", Cristine de Bem e Canto, 1993, Da coleção de: Fundação Iberê
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O ato fotográfico de Cristine de Bem e Canto enfraquece as forças conservadoras através de um caminho sutil e discreto, sem criar ameaças fáceis às formas de imobilidade ainda persistentes na fotografia.

Temos nessa vivência comum o ideal de peso dramático junto à leveza lírica.

Iberê Camargo em ensaio fotográfico, Cristine de Bem e Canto, 1992, Da coleção de: Fundação Iberê
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Documentário realizado a partir das fotografias de Cristine de Bem e Canto do pintor Iberê Camargo, no ateliê da rua Alcebíades Antônio dos Santos, Porto Alegre, produzindo guache da série "Andando contra o vento", em 1993, guaches da série "O homem da flor na boca - um ato de amor à vida", em 1992, e a pintura "Tudo te é falso e inútil V", em 1993. Direção e texto: Cristine de Bem e Canto. Montagem: James Zortéa. Desenho de som: André Brasil.

Créditos: história

Fotografias: Cristine de Bem e Canto
Texto: Virgínia Gil Araujo
Tratamento de imagem: Cristine de Bem e Canto
Audiodescrição: Mil Palavras
Edição: Gustavo Possamai

Créditos: todas as mídias
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